Livro: “Cartas do Sahara”

Não se deixe enganar pelo título. Neste livro, Alberto Moravia lança o seu olhar atento e crítico, mas também carinhoso, pelo seu continente de “eleição”, África.

“A savana é a parte mais bela de África. Savana significa espaços imensos, céus ilimitados, ervas altas sobre as quais corre a música do vento, acácias raras e leves, como nuvens no tempo ameno, vultos remotos de grandes animais maciços, búfalos, rinocerontes, elefantes, girafas, imersos na erva e sempre muito distantes de quem olha.”

“Cartas do Sahara” é o mais recente título da coleção de viagens da Tinta da China, com coordenação de Carlos Vaz Marques, que também assina o prefácio do livro de Alberto Moravia, que tem tradução de Margarida Periquito. Esta é a segunda vez que o autor italiano surge no âmbito da literatura de viagens publicada por esta editora.

 

 

O título é algo enganador, pois encontramos neste livro lugares como Buna (Costa do Marfim), o vale do Rift (Quénia) ou Kisangani (outrora Stanleyville, na República Democrática do Congo).

África foi talvez o território que Alberto Moravia mais acarinhou na sua escrita de viagens. A subida do rio Zaire, a crua luz tropical da Costa do Marfim, o deserto, tribos e aldeias no Quénia feridas pelo colonialismo, a floresta inexpugnável, a infinita savana – todas são personagens intensas desta sua descoberta literária, estética e antropológica.

Estes relatos de viagem são, sobretudo, uma profunda reflexão sobre a vida e a morte. E é precisamente neste aspeto que Moravia se junta à tradição dos grandes escritores-viajantes, contribuindo para uma memória cultural comum onde encontramos igualmente Baudelaire, Gauguin, Karen Blixen, Joseph Conrad e Ernest Hemingway, e onde as coordenadas geográficas, culturais e estéticas permitem uma leitura quer da sociedade africana, quer da ocidental.

Alberto Moravia (1907-1990), pseudónimo de Alberto Pincherle, nasceu em Roma, no seio de uma família próspera de classe média. O seu primeiro romance, “Os Indiferentes”, teve um grande impacto na vida literária italiana da época, devido em parte ao seu carácter antifascista e antiburguês, logo no momento em que Benito Mussolini e o Vaticano assinavam a Concordata. Em breve, as suas obras são proibidas pelo regime e colocadas no Índex do Vaticano. Por ser judeu e de esquerda, viveu exilado nos Estados Unidos da América durante a Segunda Guerra Mundial.

Em 1941, casou com Elsa Morante, também escritora, casamento que se manteve durante quase 20 anos. Várias das suas obras foram adaptadas ao cinema por grandes cineastas (como Bernardo Bertolucci ou Jean-Luc Godard). Em 1961 viajou pela Índia com a mulher e Pasolini, daí resultando o livro “Uma Ideia da Índia” (o primeiro volume desta coleção). Alberto Moravia morreu em Roma, em 1990.

Eis a sugestão de leitura desta semana da livraria Palavra de Viajante.

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