A moda e os wannabe’s

A primeira e uma das maiores armadilhas do empreendedorismo é a “moda” das startups. Falar-se tanto de empreendedorismo, apesar de muito positivo para legitimação social da criação de negócios (vês pai? toda a gente está a começar uma startup), traz também um conjunto de riscos perigosos sobretudo pela forma como é abordado o tema. É […]

A primeira e uma das maiores armadilhas do empreendedorismo é a “moda” das startups. Falar-se tanto de empreendedorismo, apesar de muito positivo para legitimação social da criação de negócios (vês pai? toda a gente está a começar uma startup), traz também um conjunto de riscos perigosos sobretudo pela forma como é abordado o tema. É que vivemos uma espécie de “bolha” nacional de startups.

Não se trata só do enorme número de concursos, competições, prémios, eventos, aceleradoras, incubadoras, associações, clubes, etc…  Nem tão pouco do espaço que os media cada vez mais dedicam ao tema (sem grande conhecimento nem estudo, diga-se), nem na ideia generalizada de que tecnologia é o único caminho (qual choque tecnológico, qual carapuça).

O problema são precisamente as falácias da maioria das abordagens. Existe hoje uma narrativa perigosa e uma generalizada “excitação” wanna-be em torno de um modo de vida empreendedor Silicon-valley que, não só não se adequa à maioria dos negócios que vemos, como ainda nos poderá trazer um conjunto de dissabores dada a cultura conservadora e avessa ao risco de empreender que temos.

 

Tudo começa com as razões e motivações para começar. Em Silicon-valey vivem-se lógicas maduras e de mercado muito diferentes, em que existe espaço para tudo, sendo o maior mercado de capitais de investimento e especulação do Mundo. Em Portugal, começar um negócio para especular raramente é uma boa razão e uma boa forma para começar. Vemos muitas iniciativas focadas em “engordar o porco”, em fazer crescer users e não facturação, em empurrar com a barriga para a frente sem sustentabilidade nem foco em criar valor e negócio. E nem a desculpa da tracção e do exit será grande justificação, pois esta lógica de “passar a outro e não ao mesmo” (como dizíamos quando éramos criança), funcionará bem em Silicon-valley (até ver) mas dificilmente em Portugal.

Por outro lado, em Silicon-valley começar um negócio para ser milionário e famoso até pode ser uma boa motivação, até porque culturalmente o american-dream continua a reinventar-se e hoje assenta como uma luva nos perfis dos founders que vemos nas startups e nas capas de revistas. Em Portugal, uma vez mais, estas razões não só estão desajustadas com a realidade (sobretudo no que diz respeito ao milionário) como podem gerar um conjunto de expectativas frustradas. Não temos grande cultura de capa de revista e os que temos muitas vezes terminam mal.

 

Empreender não é moda. As modas vêm e vão, hoje são de Silicon-valley, amanhã outra coisa qualquer. Em Portugal,  o empreendedorismo desde sempre existiu e vai continuar a existir, mas tem que ser feito com um nosso cunho e identidade, para fazer negócio e sobretudo para facturar.

E ser empreendedor não é ser wanna-be. Fazer acontecer mais do que falar ou sonhar, não é glamouroso nem tão pouco fácil ou até bonito, mas não há nada que saiba melhor e que seja mais nobre, do que criar impacto e acrescentar valor mesmo que ninguém veja, comente ou dê prémios.

Toca a fugir da moda e dos holofotes. Vamos mas é vestir o fato-de-macaco e facturar.

Miguel Munõz Duarte

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