2019, um ano ímpar

Nesta altura do ano temos todos um espelho retrovisor numa mão e uma bola de cristal na outra. Nenhum desses exercícios, de balanço ou de antevisão, é fácil.

Há o risco da proximidade nos afetar a visão do passado. Pior, há a hipótese de a velocidade dos acontecimentos tornar a futurologia em ginástica irrelevante.

Uma das formas de evitar essas armadilhas é olhar para os acontecimentos enquadrados em ciclos mais alargados. Na transição de 2018 para 2019 é especialmente útil fazê-lo. O ano que termina agora foi, em muitos aspetos, o início do fim de um ciclo, de derrapagem em direção a um ano que deverá ser, a todos os níveis, ímpar. Para o percebermos, temos de usar um retrovisor maior e refletir sobre 2016 e 2017 também.

Na economia mundial, após o ano passado ter representado o pico de crescimento pós-crise, este já foi de abrandamento. Num mundo interligado, o protecionismo inspirado por Donald Trump fez mossa no otimismo. A travagem deverá prosseguir e embora a maioria dos analistas não acredite que 2019 será de recessão, alguns já começam a emitir alertas.

O impacto do presidente dos EUA fez-se sentir também nos mercados, que beneficiaram, na primeira fase do ano, da reforma fiscal para atingir máximos. No entanto, o ano também foi de volatilidade e, à medida que os meses passavam, os investidores deixaram de confiar no otimismo de Trump, mostrando preocupação com as peripécias da Casa Branca, especialmente as relações institucionais com a Fed. Em muitas praças, o bear já tomou o lugar do bull, uma tendência que irá continuar em 2019.

A intensidade da era Trump é tal que já parece durar uma eternidade, mas o mandato só agora vai chegar a meio. O magnata foi resistindo em várias frentes, mas parece chegar à segunda metade da presidência com dificuldades em manter aliados ao seu lado. Em 2019, poderá a investigação do persistente Robert Mueller quebrar a resistência de um presidente isolado? Ainda na arena internacional, o Brexit vai, infelizmente, chegar. Após ano e meio de trapalhadas, Theresa May vai liderar um abandono inédito, caótico e custoso.

Em Portugal, a economia vai seguir a tendência externa. Depois de dois anos a aproveitar a boleia do boom mundial e da generosidade do BCE, 2019 vai trazer um teste à estratégia de Centeno. Conseguirá Super Mário manter as contas públicas saudáveis mesmo em ambiente adverso? A gestão financeira parece dar conforto, mas a perene incapacidade nacional de fazer reformas estruturais pode sair cara.

É na frente política nacional, no entanto, que 2019 se afigura mesmo como um ano ímpar. Após a surpreendente criação e resistência da geringonça, de repente vamos ter três eleições (europeias, regionais e legislativas) num ano. Cada uma vai ter a sua própria dinâmica. A corrida para Estrasburgo costuma ter pouca afluência, mas poderá chamar atenção ao debate sobre o futuro da União. As regionais vão ser especialmente interessantes na Madeira, onde as sondagens vaticinam um empate técnico e a primeira vez do PSD sem maioria absoluta.

Nas legislativas, o foco também vai estar sobre os social-democratas. Conseguirão convencer os portugueses que os sucessos de Costa foram baseados em sorte e “fantasia”? Ou irá o primeiro-ministro conseguir mostrar que é a melhor escolha? Com a contestação a subir, a maioria absoluta desejada pelo PS poderá ser uma miragem e levar a uma geringonça 2.0.? Ou poderá Rio estender a mão para a criação de um bloco central?

No meu retrovisor vejo uma lição que tirei do penúltimo ano ímpar (2015) e que poderá ser útil ao analisar a bola de cristal: em matéria de eleições, expect the unexpected.

 

Em nome da equipa do Jornal Económico, desejo aos nossos leitores, parceiros e anunciantes um excelente 2019.

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