2020 vai ser um ano histérico

É muito difícil ficar no meio de duas pessoas que estão aos berros. Foi o que nos aconteceu em 2019.

É muito difícil ficar no meio de duas pessoas que estão aos berros. Foi o que nos aconteceu em 2019. O volume da gritaria vinda de polos opostos aumentou, ensurdecendo os que procuram consensos no centro e levando muitos a abandonar, por desgaste, a mesa do debate.

Infelizmente, não se prevê que a barulheira diminua no ano que começa na próxima quarta-feira, antes pelo contrário. Vivemos numa era de histeria crescente, no qual o suposto líder do mundo livre vocifera diariamente contra vários inimigos no Twitter, esgrimindo insultos em letras maiúsculas, finalizados com pontos de exclamação.

Desses inimigos, os ‘favoritos’ são os democratas. Num ano em que vai enfrentar um processo de impeachment e eleições para um segundo mandato, é pouco provável que Donald Trump reduza as exclamações contra Nancy Pelosi e companhia.

No campo dos democratas, a histeria também está patente no processo divisivo e caótico de escolha do candidato ou candidata que vai enfrentar Trump. O próprio impeachment, que tem poucas hipóteses de sucesso, pode acabar por polarizar, ao levar muitos republicanos para mais longe do centro.

Jerome Powell e a Fed, Xi Jinping e a Huawei, Greta Thunberg e as alterações climáticas – Trump exaltou-se e indignou-se com estes e outros alvos, numa estratégia de colocar os seus apoiantes unidos contra o resto do mundo.

A onda de histeria não é exclusiva de Trump e já atingiu a costa portuguesa. Ainda este mês esteve em evidência na receção a Greta. A jovem ambientalista sueca também usa alguma gritaria para alertar o mundo sobre a destruição do planeta. A frase sobre os líderes terem roubado os sonhos e a infância à miúda é capaz de ter sido desnecessária, mas por outro lado também não justifica a forma violenta como a ativista foi atacada por vários ilustres comentadores da praça portuguesa.

Na Assembleia da República a gritaria não é novidade, mas o tom subiu com a nova legislatura. Diversidade e maior representação são aspetos positivos que a entrada de novos partidos pode trazer ao hemiciclo. No entanto, até agora vimos principalmente a chegada de polémicas sobre o uso de saias por homens e da palavra ‘vergonha’ no discurso. Não sendo completamente irrelevantes, também não são temas cruciais.

A fragmentação neste novo ciclo político não vem apenas dos novos players. O fim da geringonça também leva antigos companheiros a berrar uns com os outros. A discussão e a votação do Orçamento do Estado vão formar o próximo festival da cacofonia nacional.

No terreno da oposição à direita, nomeadamente no PSD e no CDS-PP, os debates internos estão abertos, mas como resultam principalmente de desaires nas eleições de 6 de outubro irão provavelmente descambar em atribuições de culpas entre os candidatos.

Em Belém reside uma das maiores discussões a nível nacional. O Presidente parece estar em permanente debate interno sobre a recandidatura e de vez em quando envolve-nos nessa conversa, mas apenas como meros ouvintes.

Marcelo disse que vai decidir em 2020 e seria bom se o fizesse já no início do ano, para não desviar a atenção de debates mais importantes como o futuro da economia, da saúde, do emprego e da educação.

A oportunidade de discutir estes temas é um dos grandes benefícios da democracia. Seria bom se em 2020 a usássemos de forma construtiva, em vez de tentarmos berrar mais alto que os outros.

Em nome da equipa do Jornal Económico, desejo aos nossos leitores, parceiros e anunciantes um excelente 2020.

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