2022

Importa reter algumas aprendizagens: temos que rapidamente definir modus operandi do ponto de vista das políticas públicas e da burocracia do Estado, que sejam flexíveis e plásticas para ajustar ao imprevisto e inédito.

Este ano que agora arranca é um misto estranho de esperança e receio. Será este o ano em que finalmente vamos ultrapassar a pandemia? Em que o mundo vai voltar a ser aquilo que conhecíamos? O ano em que a política e a economia vão deixar de estar dominadas pela Covid ou, pelo contrário, o ano em que a vida em pandemia passa a ser “normal”?

O arranque, para já, tem sido um pouco assustador. Os contágios dispararam, embora, felizmente (e como consequência da vacinação), sem aumento de mortos ou de internamentos, mas trazendo novamente confinamento e limitação de atividade, persistindo numa significativa disrupção das nossas vidas.

Contudo, o que se conseguiu em 2020 e 2021, num cenário impensável que nos apanhou totalmente desprevenidos, foi, por todas as medidas, notável: o desenvolvimento em tempo recorde de vacinas, a vacinação em massa (infelizmente, quase só no hemisfério Norte), a mobilização de recursos financeiros, a capacidade de a Europa (depois de algum caos inicial) se conseguir organizar e responder, são vitórias inegáveis.

Mas, se por um lado, percebemos que temos capacidade de resposta e adaptação, que conseguimos gerir (umas vezes melhor e outras pior) e decidir no meio do inesperado, por outro, aprendemos da forma mais dura que a nossa capacidade de controlo e previsão é muito reduzida. Com as alterações climáticas, que são cada vez mais evidentes, os cientistas avisam que este tipo de situação súbita e imprevista (pandémica ou do próprio clima), pode vir a ser recorrente.

Para que consigamos navegar esta imprevisibilidade e manter um controlo mínimo de um contexto de pânico e forte perturbação social e económica que põe em risco o nosso bem-estar comum, é essencial reter algumas aprendizagens: temos que rapidamente definir modus operandi do ponto de vista das políticas públicas e da burocracia do Estado, que sejam flexíveis e plásticas para ajustar ao imprevisto e inédito.

Não podemos, nunca mais, achar que vamos voltar ao mesmo normal e continuar a operar como se estes dois anos tivessem sido apenas um soluço. Mesmo que dentro de um par de meses nos sintamos a regressar ao “normal antigo”, não podemos passar a funcionar, do ponto de vista das políticas públicas, como se estivéssemos de novo em 2019.

Infelizmente essa foi a atitude depois da crise do subprime. Durante uns tempos muitos de nós acreditámos que uma crise iniciada por um setor bancário desregulado e pouco supervisionado, uma crise que expôs os que lucravam e fomentavam a especulação financeira, teria consequências inevitáveis do ponto de vista dos reguladores, do controlo de salários e prémios, e que o foco na profunda desigualdade voltaria a ser uma preocupação. Mas passado muito pouco tempo tudo foi praticamente esquecido.

Não podemos correr esse risco agora! Nada pode ou deve voltar a ser como dantes.

E em termos de aprendizagem e de exposição a pandemia revelou, mais uma vez, a tremenda desigualdade. Desigualdade entre povos, entre países, entre pessoas e comunidades dentro do mesmo país, entre etnias e entre géneros.

Nos séculos XIX e XX, os dados mostram que sempre que a desigualdade atingiu picos insustentáveis, estes foram resolvidos por uma revolução ou uma guerra. Esperemos que no século XXI uma pandemia e suas consequências sejam suficientes para levar os políticos e decisores a pôr o foco no sítio certo.

Esperemos que o Novo Ano seja mesmo um Ano Novo!

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