2022: à espera de Godot

Dezembro de 2021: enquanto a FED e o Banco de Inglaterra anunciam subidas das taxas de juro, Lagarde anuncia, por ora, não ter razões para lhes seguir as pisadas, naquele que terá sido o melhor presente de Natal para os líderes da zona euro.

Dezembro de 2021: enquanto a FED e o Banco de Inglaterra anunciam subidas das taxas de juro, Lagarde anuncia, por ora, não ter razões para lhes seguir as pisadas, naquele que terá sido o melhor presente de Natal para os líderes da zona euro. Porque será a ex-presidente do FMI do contra numa matéria tão sensível como esta?

Um dia depois destas declarações, o Eurostat divulgou uma estimativa de 4.9% para a taxa de inflação anual da zona euro, uma subida galopante quer em relação à previsão de Novembro de 2020, quer à de Outubro de 2021. No caso alemão, a inflação foi estimada em 6.0%, um valor que há bem pouco tempo faria disparar campainhas. Ditava a regra que, na ânsia de contrariar esta tendência, os governadores do BCE se precipitassem a aumentar a taxa de juro. Teriam o apoio da maior economia da zona euro, o maestro na condução da sua política monetária.

Seguir o exemplo anglo-saxónico agradaria ainda aos arautos da inflação, que veem nesta escalada de preços a confirmação de que o programa monetário expansionista terminaria inevitavelmente na subida de preços nos países da moeda única.

O BCE parece ter feito uma leitura diferente – a de que 2022 será sobretudo marcado por incerteza. Incerteza quanto à inflação, é certo. Mas incerteza quanto à evolução da pandemia. Incerteza quanto à capacidade e vontade de recuperação das cadeias de distribuição. Incerteza quanto à habilidade para continuar a conter os movimentos sociais que ameaçam explodir a cada dia. Incerteza quanto às relações que se estabelecerão entre os EUA e a China e entre os primeiros e o Reino Unido e a eventual transferência de poder económico que daqui resultará.

E quiçá o travo amargo da crise financeira anterior recorde que incerteza e políticas de austeridade não são uma parelha feliz.

Lagarde sabe que, para que a Europa não perca a liderança, a Alemanha deverá renovar o seu parque industrial, tendo já anunciado a modernização das suas estruturas produtivas a pretexto da transição verde. Financiar os investimentos previstos pelo PRR alemão obriga a manter as taxas de juro em níveis baixos.

Acresce que recuperar do embate da pandemia se apresenta como uma boa e plausível razão para defender políticas orçamentais de estímulo económico em toda a zona euro, que aguarda ansiosamente por aquela que será a primeira lufada de ar fresco em 20 anos de espartilho do euro e do PEC.

Nesta conjuntura, Portugal tem de feição uma Europa voltada para a resolução dos seus problemas internos e com vontade de se afirmar perante o mundo. Se este estado de coisas perdurar, a sua histórica permeabilidade externa e o PRR serão alavancas naturais da economia. Mas a mesma falta de autonomia condena a que, a qualquer volte-face da política europeia – e também aqui não há certezas, – a economia portuguesa seja arrastada para o fundo. E, neste sentido, a cada novo ano se repetem os votos para que se possa fazer a diferença, reduzindo a vulnerabilidade da economia portuguesa às contingências externas.

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