2022, ano de esperança: “recuperação criativa e comercial”

O que procura o consumidor num relógio? “Atualmente os clientes compram um relógio pela beleza da peça. Usam-no como uma joia e não como uma ferramenta”, diz Carlos Rosillo, CEO da Bell & Ross.

Existem três grandes grupos no sector: Indústria, grossistas e retalho. João Faria, presidente da AORP – Associação de Ourivesaria e Relojoaria de Portugal, caracteriza-os e identifica as suas necessidades: “Os três têm características diferentes e campos de ação diversos. Relativamente à indústria, teremos de monitorizar a situação, perceber as oportunidades e desafios, através da auscultação direta aos associados.

Depois de os auscultarmos, devemos avançar para inovação produtiva, criar grupos de trabalho para partilha de ‘know-how’ entre os associados e ainda criar um centro de inovação e investigação (I&D) para o nosso sector, que apoie e promova a sua transição tecnológica e digital. No que concerne aos grossistas, passará por informar os nossos associados relativamente aos mercados internacionais, promovermos a internacionalização do comércio por grosso e valorizar o papel do mesmo, garantindo valor a este segmento, no plano nacional e internacional. Por fim, o retalho: devemos promover a digitalização através de criação e apoio de lojas online, para que possamos chegar a diferentes mercados, com vista ao crescimento do mesmo e à sua internacionalização”.

João Faria diz-nos que são cerca de 750 empresas industriais e 3200 empresas que se dedicam ao comércio (grosso, retalho e reparações). O volume de negócios anual do sector é, acrescenta, de cerca de 100 milhões na indústria e de 950 milhões no comércio (por grosso, retalho e reparações).

Existindo no sector uma grande diversidade, das empresas mais tradicionais, que preservam as técnicas ancestrais ao design contemporâneo, é difícil para a associação trabalhar essa diversidade? O presidente da AORP responde: “É verdade, e é sem dúvida o nosso maior desafio. Conseguirmos chegar às empresas com toda esta diversidade e conseguir ajudá-las naquilo que elas realmente precisam, porque o sector tem ainda empresas de cariz familiar e um grande número de empresas constituídas por apenas duas ou três pessoas. O nosso desafio é criarmos iniciativas ajustadas às necessidades delas, no sentido de ajudarmos o maior número de empresas”.

E que principais eventos internacionais e feiras podemos esperar para 2023? “Desejámos promover a imagem e reputação nacional e internacional do sector da joalharia portuguesa. O ‘know-how’ e a existência de uma forte rede, com elevada capacidade de resposta, devem ser as premissas base para toda a comunicação conjunta. Teremos que estar presentes em eventos como feiras internacionais de ourivesaria e relojoaria, presença em feiras de moda, faremos missões inversas com mercados estratégicos, tais como França, Alemanha, Países Baixos, Espanha, Itália, Reino Unido e EUA. Explorar novos mercados, como Asia e países nórdicos. Temos o objetivo de promover eventos de networking nas semanas de moda nacionais e internacionais, estabelecer parcerias com escolas de design de moda, como a London College of Fashion, organizar showrooms nas semanas da moda para promover o sector e alcançar novos buyers”, explica João Faria.

A AORP tem previstos investimentos em ações de promoção internacional através dos projetos financiados, com o intuito de apoiar os seus associados no seu trajeto internacional.

“O plano estratégico será assumir que o sector da joalharia portuguesa é um ator presente na senda internacional, reclamando a sua competência produtiva pela capacidade distintiva de criar tendências no mercado internacional. Pretendemos garantir a ligação a associações internacionais de referência do sector, desenvolver campanhas internacionais direcionadas, estabelecer parcerias com players e buyers internacionais, criar shows nacionais, promover a presença de buyers internacionais e estabelecer parcerias com feiras internacionais para potencializar relações comerciais”, conclui João Faria.

Para Claudine Gertiser, CEO da Oris, o saldo de 2022 é positivo. “Estamos satisfeitos por estarmos a ter um desempenho melhor do que antes da pandemia, especialmente olhando para uma situação desafiante em muitos mercados europeus devido à alta inflação e em alguns dos mercados asiáticos, especialmente na China, devido à contínua restrição da Covid. No geral, podemos dizer que quanto mais a ocidente melhor e que temos a sorte de mais do que compensar a diminuição enfrentada na China, com outros mercados estarem a ter um desempenho muito bom. Especialmente os EUA mas também outros mercados asiáticos e europeus”, diz.

Claudine Gertiser prefere não revelar qual foi o volume de negócios da Oris. “Exportamos para mais de 90 países e fornecemos cerca de 2.500 pontos de venda. Olhando para os números de exportação da indústria relojoeira suíça, vemos que estamos a ir melhor, especialmente quando olhamos para a situação no nosso segmento de preços. As exportações suíças na categoria de preço mais baixo, com um preço de varejo de cerca de mil euros ou menos, estão em declínio, enquanto as exportações de relógios mais caros estão a aumentar. Um dos fatores que certamente ajuda a Oris é o lançamento do nosso novo calibre de movimento interno 400. Foi muito bem recebido em todos os mercados. Com uma reserva de marcha de cinco dias, uma garantia de dez anos e propriedades altamente antimagnéticas, estamos orgulhosos de ter estabelecido um novo padrão, especialmente ao nosso preço”, considera.

Claudine Gertiser encara 2023 com prudência. “As nuvens escuras ainda estão a clarear. A situação ainda é muito incerta e é difícil fazer uma previsão geral. Devido ao desenvolvimento positivo da Oris, também graças ao nosso próprio movimento automático e às inovações empolgantes que temos em preparação para 2023, estamos otimistas e planeamos um maior crescimento”.

Patrick Zingg, diretor-geral da Graham, considera que 2020 e 2021 desencadearam uma enorme reorganização da indústria relojoeira, levando a grandes desafios da cadeia de suprimentos (escassez de matérias-primas, pessoas e capacidades), bem como a deficiências de pontos de venda (lockdown, incerteza e desafios financeiros). “O custo de fazer negócios ‘como de costume’ aumentou consideravelmente, com atrasos no desenvolvimento de produtos, investimentos em marca e custos de viagem. A aceleração da transformação digital obrigou a gestão executiva a solicitar o apoio dos acionistas”, lamenta. No entanto, ressalva que, apesar de todos os obstáculos, a Graham foi capaz de garantir os postos de trabalho dos seus funcionários, alcançar um crescimento recorde no Japão e crescer nos EUA. “Outro grande sucesso está relacionado com o vosso país, Portugal.

A Graham foi convidada a produzir o relógio comemorativo da celebração do 100º Aniversário da Primeira Travessia Aérea do Atlântico Sul”, acrescenta. Em 2022, a Graham lançou o Fortress GMT e um novo material de alta tecnologia, amplificando a Superlight Collection. Quando interrogado sobre qual foi o volume de negócios da empresa, o diretor-geral da Graham responde: “Como marca independente, concentramos-nos mais no investimento (qualidade, materiais, serviços, colegas e know-how) do que no volume de negócios, mais no dinheiro para apoiar o investimento do que nos lucros. Num ano normal, produzimos entre 4 mil e 5 mil relógios, enquanto no passado recente estivemos a cerca de 2/3 das nossas capacidades”.

Patrick Zingg acredita que “2023 continuará a ser um ano de ajuste e realinhamento” e que “passarão mais 18 a 24 meses para estarmos onde estavamos em 2019. A criatividade e a tecnologia permanecerão no centro da nossa missão”.

No próximo ano, a Graham estará focada em modelos feitos por medida para uma clientela exigente, nomeadamente o seu parceiro em Israel – JB Jewelers. Além de relançar um clássico, também conhecido como GMT Oversize e novos modelos Superlight, a Graham está a desenvolver um novo produto que ainda não pode ser divulgado, mas que será conhecido em Genebra, na próxima primavera, na maior feira de relógios do mundo, a Watches and Wonders.

Carlos Rosillo, CEO da Bell & Ross, diz que 2022 foi um ano “reconfortante”, após a crise da pandemia.“Houve uma recuperação criativa e comercial, foi um ano cheio de conforto e esperança”. Carlos está otimista. “Esperamos que 2023 seja tão bom e até melhor do que 2022, porque queremos crescer a cada ano. Para 2023 vamos propor novas variações, novas cores e um novo projeto de relojoaria de alta qualidade.

Segundo Carlos Rosillo, o sector relojoeiro enfrenta problemas com a produção e o fornecimento de matérias-primas. “Com a desaceleração devido à Covid, muitas indústrias perderam mão-de-obra e com este renascimento pós-crise a procura é ainda maior do que antes. É complicado para alguns acompanhar as exigências de produção”. E o que procura o consumidor num relógio? “Atualmente os clientes não compram um relógio para uma função, mas sim pela beleza da peça. Usam-no como uma joia e não como uma ferramenta. É um sinal de distinção. Temos o desejo de criar um relógio para os profissionais da Bell & Ross, um relógio que seja uma ferramenta. E como conquistar os corações da geração mais jovem? “A geração mais jovem está habituada a um consumo excessivo, devemos criar uma peça que a faça sentir emoções fortes.

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