40 anos depois

Esta semana assinalaram-se alguns eventos dignos de nota na vida portuguesa. Refiro-me ao 40.º aniversário da Independência de Angola e ao facto de, pela primeira vez em 40 anos de vida parlamentar, termos a proposta de um Governo saído da convergência das forças de esquerda, representadas na assembleia. Mais do que o contar da passagem […]

Esta semana assinalaram-se alguns eventos dignos de nota na vida portuguesa. Refiro-me ao 40.º aniversário da Independência de Angola e ao facto de, pela primeira vez em 40 anos de vida parlamentar, termos a proposta de um Governo saído da convergência das forças de esquerda, representadas na assembleia.

Mais do que o contar da passagem dos anos, estes 40 anos são datas simbólicas que mostram como os regimes políticos têm vindo a amadurecer, como a sociedade tem respondido aos seus desafios. No caso da independência de Angola, existem várias iniciativas, de lançamentos de livros a concertos, de conferências a cerimónias simbólicas.

Um dos eventos que aqui gostaria de assinalar foi o lançamento do último volume de uma trilogia de livros denominada “Angola, o Nascimento de uma Nação”, coordenado por Maria do Carmo Piçarra e por Jorge António, da editora Guerra e Paz, e que se dedica ao cinema de Angola, ou melhor, a como o cinema de Angola se tornou, anos mais tarde, no cinema angolano. De forma interessante, estes livros levam-nos a viajar desde o Cinema do Império até ao Cinema da Independência, passando pelo Cinema da Libertação. Temos aqui uma obra que percorre estas quatro décadas de independência, sem esquecer o passado colonial, através de um fio condutor, o cinema.

Evoquei aqui este conjunto de livros porque me parece um bom ponto de partida: fazer o percurso de quatro décadas de independência a partir da vida cultural e social de um país, seja através do cinema, da literatura, das artes plásticas ou de outras atividades socioculturais. Digo isto, acreditando cada vez mais que a ciência e a arte podem dizer muito mais sobre a situação política de um país do que o discurso político oficial o faz. São estas leituras descomprometidas que nos podem ajudar a avaliar os sucessos e insucessos de um sistema político e de um regime.

Afirmo isto num momento em que, em Portugal, assistimos às mais diversas trocas de argumentos, em geral pouco originais e até diria repetitivos, por parte de quem produz e receciona acriticamente o discurso político. Houve muitos surpreendidos pela novidade política que o país vive, mas será que a vida política tem de ser sempre igual? Parece que não. Que ser democrático implica criatividade e procura de soluções negociadas. Afinal, em democracia, mudança também significa vitalidade.

E a arte e a ciência são tradutores da realidade que nos podem, de facto, dizer se estamos perante efemérides de vitalidade ou de continuidade amorfa. Passados 40 anos sobre as independências de Angola, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe e sobre a democracia em Portugal, cabe-nos questionar até que ponto construímos países diferentes daqueles que existiam. No vigor da ciência e da arte nesses países, poderemos encontrar algumas respostas para termos mais do que simples celebrações de mais um ano de vida cumprida.

Cátia Miriam Costa
Investigadora do Centro de Estudos Internacionais, ISCTE – IUL

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