5G pode impactar PIB português em 18 mil milhões de euros até 2030, estima Ericsson

Apesar do enorme potencial, Andrés Vicente, CEO da Ericsson Iberia, aponta severos atrasos na implementação desta tecnologia em Portugal e na Europa. “Ao contrário de outras economias europeias, Portugal não colocou o 5G como vetor independente do PRR”, alerta este responsável em entrevista ao JE.

Cristina Bernardo

A Ericsson estima que o PIB português possa evoluir 18 milhões de euros até 2030 caso Portugal consiga implementar de forma integrada a tecnologia 5G. Para a tecnológica, esta estimativa potencial de um crescimento do PIB nacional estimado entre 9% a 10% (de 200,1 mil milhões de euros em 2020 para 218,1 mil milhões de euros) está dependente da forma como a abrangência desta tecnologia possa afetar setores estratégicos do país.

Em entrevista ao JE e no âmbito da iniciativa Imagine Live que decorreu em Lisboa (que visa juntar parceiros e colaboradores em torno do universo tecnológico e estratégico da marca), Andrés Vicente, CEO da Ericsson Iberia, começou por realçar a importância de Portugal para a marca: “Acreditamos que o 5G é muito importante e que vai transformar o mundo e Portugal é muito importante para a Ericsson. Estamos em Portugal há 70 anos, sempre com foco no investimento. Temos uma operação significativa com 250 empregados diretos, trabalhamos com todos os clientes de telecomunicações em Portugal, temos um volume de negócios significativo em Portugal em torno dos 140 milhões de euros por ano”.

Analisando a evolução tecnológica de Portugal nos últimos anos e os desafios que o país tem nos próximos anos, o responsável máximo da Ericsson Iberia acredita que “com o 5G, Portugal tem uma oportunidade histórica como plataforma tecnológica. O país fez grandes avanços ao nível da fibra ótica, está muito bem posicionado como plataforma de startups e é um país que consegue atrair talento nesse âmbito. Na Ericsson, estamos a tentar despertar um sentido de urgência em relação ao 5G tendo em conta o potencial que esta tecnologia tem para mudar o perfil do país”.

Sobre a estimativa do impacto referido no PIB português, dependente de uma aplicação transversal do 5G nos setores estratégicos de Portugal, Andrés Vicente acredita que “uma economia que consiga aproveitar o 5G em grande escala pode maximizar o seu PIB em valores desta ordem” e que esta tecnologia “pode converter-se na coluna vertebral de todo o desenvolvimento do país com uma abrangência direta em setores estratégicos: educação, transportes, redes de abastecimento de água e energia. É um impacto holístico na economia”.

Europa “muito atrasada” no 5G

Apesar de todo o potencial, o CEO da Ericsson Iberia partilhou riscos inerentes à posição de partida de Portugal e da Europa no que concerne ao aproveitamento do 5G: “A Europa está muito atrasada na implementação do 5G em comparação com outras potências mundiais (EUA e China estão com um nível de desenvolvimento desta tecnologia de 60% e a Europa está em valores de 20% no mesmo indicador)”. Quanto a Portugal, a posição em que o país parte é “preocupante” e Andrés Vicente explica os motivos: “Em parte porque os leilões foram realizados mais tarde e é preciso perceber que 80% a 85% do alavancar do 5G vai ser feito através de investimentos privados. Ao contrário de outras economias europeias, Portugal não colocou o 5G como vetor independente do Plano de Recuperação e Resiliência. Tanto Espanha como Itália fizeram-no e destinaram fundos específicos para o alavancar desta tecnologia. No caso de Espanha são 2,6 mil milhões, em Itália são 2 mil milhões mas Portugal não destinou uma verba específica para o alavancar desta tecnologia (note-se que o PRR português destina 2,4 mil milhões para a transição digital).

“Sentido de urgência” face a Portugal e à Europa

Ao JE, Andrés Vicente considera que “o alavancar desta tecnologia é crítico e a Europa e Portugal estão atrasados nesta matéria. Há um sentido de urgência porque isto vai mudar o perfil do país”. Este responsável elogia a qualidade da rede de fibra em Portugal e que o país “tem vantagens nesse aspeto até porque foram feitas mudanças fiscais que atraíram investimentos tecnológicos mas há a possibilidade de ficar atrasado pelo facto de ignorar o 5G como algo que vai mudar profundamente o perfil do país e aí a administração pública tem que estar atenta”. Por último, há uma terceira ameaça que Andrés Vicente realça e que está relacionado com a profusão de ciberataques que pode ganhar uma nova escala nos próximos anos: “Há um terceiro elemento que está relacionado com a segurança das redes e sobretudo dos sistemas integrados de abastecimento de água, de energia, transportes; o que estamos a ver é que os ciberataques podem alastrar-se para áreas onde possam provocar a amplificação do efeito: distribuição de energia, educação, aeroportos. Tem que haver autonomia das empresas que fornecem este tipo de tecnologia e nisto Portugal está atrasado em relação a outros países europeus, porque a adoção massiva do 5G implica que exista essa autonomia”.

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