A adversidade cria a oportunidade, também no Agribusiness

É fundamental acumular dados sobre as nossas culturas para encontrar aquelas que apresentam menos impacto ambiental, são economicamente viáveis e proporcionam benefícios sociais.

Não resisto a iniciar este artigo com as palavras sábias de Albert Einstein: “No meio de qualquer dificuldade encontra-se a oportunidade”.

De facto, depois de uma pandemia que criou o caos nos canais de distribuição, deixando a logística de aprovisionamento em sérias dificuldades, surge uma guerra infame na Europa que nos bloqueia os grandes fornecedores de energia e de cereais e outros bens alimentares básicos (ex: óleo de girassol).

As empresas lutam com grandes dificuldades em manter a produção, porque no período pré-Covid viveu-se uma grande estabilidade na Europa, e perdemos a capacidade de encontrar soluções rapidamente.

A falta de flexibilidade nas fichas técnicas dos produtos alimentares impede a rápida substituição de uns ingredientes por outros equivalentes, do óleo de girassol por azeite, por exemplo. Por outro lado, a rotina de abastecimento faz com que as empresas tenham grandes quantidades de rótulos impressos (por ex. com o óleo de girassol). E a colocação de um autocolante revelando a substituição do ingrediente, está por autorizar.

Criámos muitas regras em prol da segurança alimentar e agora estamos com dificuldades. Na realidade, algumas destas substituições podem ser uma oportunidade para os nossos produtos locais, como é o caso do azeite. Passarmos a importar gás natural da Argélia e dos EUA pode ser também uma grande oportunidade para o porto de Sines. E ainda, a falta de bens como os cereais e o girassol, pode ser uma inspiração para agricultores que andam em busca de culturas alternativas viáveis economicamente, e sustentáveis ambiental e socialmente.

Os cereais ancestrais, por exemplo espelta e kamut, menos exigentes em solos e mais procurados pelos consumidores cada vez mais exigentes, podem ser uma boa alternativa ao novo “El Dourado”– Canabis sativa. Com tantos a quererem esta cultura, fortemente regulamentada e com mercado nos fármacos ou nos nutricêuticos, rapidamente vai surgir excesso de oferta. Além disso, ocupar o solo que já é tão escasso, com este tipo de culturas, torna-se eticamente questionável.

A adoção de técnicas de precisão guiadas por satélite já tem, e continuará a ter, um papel fundamental na Agricultura, para otimizar o uso de fertilizantes e controlar doenças e pestes, detetando-as mais cedo. As práticas antigas de rotação de folhas de terreno, alternando culturas, podem mostrar-se muito úteis se associarmos estas práticas às modernas tecnologias digitais.

Para efetivamente avaliar que culturas usar, e como cultivar, transformar e comercializar, é fundamental acumular dados sobre as nossas culturas para encontrar aquelas que apresentam menos impacto ambiental, são economicamente viáveis e proporcionam benefícios sociais. Para tanto, devem usar-se os métodos de (S)LCA (social-life cycle assessements), mas usando dados obtidos localmente.

Na pós-graduação em Agribusiness, uma colaboração Consulai+Instituto Superior de Agronomia+ISEG, abordamos estes e outros assuntos, nesta área tão importante e com tanto protagonismo no futuro da humanidade.

Artigo escrito em coautoria com Pedro Santos e José Veríssimo, Cocoordenadores da Pós-Graduação em Agribusiness do ISEG Executive Education, em parceria com o Instituto Superior de Agronomia (ISA) e Consulai

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