A angústia dos dois mil milhões de euros

É nosso dever cívico pedir ao Governo que tome medidas para mitigar este processo coletivo de empobrecimento em curso.

O Governo português, só no primeiro semestre, coletou em impostos mais dois mil milhões que o orçamentado. Sinal de que a inflação, com desemprego baixo, é boa para a arrecadação fiscal.

Também não se tem passado uma semana sem que tenhamos conhecimento de mais um Governo europeu que toma medidas resolutas para minimizar a carestia de vida que esta inflação está a provocar nos trabalhadores, nos aforradores, nas famílias e nas empresas que não conseguem ter poder de mercado para impor preços mais altos aos seus clientes.

Ou que uma associação de defesa dos consumidores venha alertar que, desde o início do ano, o cabaz básico de compras mensais de uma família média portuguesa subiu mais de 200 euros de preço.

Ou que todas as empresas distribuidoras e comercializadoras de energia doméstica anunciem aumentos significativos dos preços a cobrar nos próximos meses.

Por isso é nosso dever cívico pedir ao Governo que tome medidas para mitigar este processo coletivo de empobrecimento em curso, transversal a todas as famílias e a uma grande parte das micro e pequenas e médias empresas (PME). Devolvendo uma grande parte, uma parte significativa, dos dois mil milhões arrecadados de forma extraordinária, gentileza da inflação.

E não precisa de inventar nem de tentar premiar apenas pequenos grupos de cidadãos. O Governo deve ter a ambição de ser geral, porque abrangente e punitiva é a inflação, qual praga do Egito, que não poupa ninguém.

Vários outros países europeus têm dado o mote. Sem ser muito exaustivo, foram tomadas medidas temporárias para reduzir o IVA sobre os preços da energia doméstica ou das PME, outras generalizadas a nível de IRS (atualização dos escalões e redução de taxas), na tributação das empresas, nos passes sociais dos transportes coletivos (onde em Portugal um trabalhador ou estudante pode pagar cerca de 30 vezes mais que na Alemanha), entre tantas outras.

O que se percebe mal é que os nossos parceiros europeus tenham sido decisivos nesta matéria, ainda durante a primavera, e em Portugal, enquanto a classe média definha, o Estado beneficie os reformados estrangeiros que vivem num país seguro, com belíssimas infraestruturas (pagas pelos nossos impostos e por fundos europeus), e as grandes empresas anunciem resultados sólidos (muitas em valores inéditos nas últimas décadas).

Estranha-se que os órgãos intermédios da sociedade civil (igrejas, universidades, associações profissionais, uma certa central sindical) não se indignem contra a chacina da classe média. Como já referi num artigo anterior, esta inflação, com os pífios aumentos salariais nos funcionários públicos e com o cutelo sobre a contratação coletiva), é mais penalizadora que o enorme aumento de impostos do ex-ministro das Finanças Vítor Gaspar.

Não importa quase nada, neste contexto, saber das fintas do Enzo, golos do Gonçalo, das azias do Sérgio, dos amuos do Rúben, nem mesmo das trapalhadas ministeriais sobre incêndios e florestas.

Queremos ação e devolução dos dois mil milhões de euros!

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