A armadilha da inflação

No Orçamento chumbado de outubro do ano passado, a inflação de 2022 foi estimada em apenas 0,9%.

No Orçamento chumbado de outubro do ano passado, a inflação de 2022 foi estimada em apenas 0,9%. Mas seis meses depois, com o novo OE2022, acabou por se fixar quatro vezes mais do que isso, numa escalada agravada pelos efeitos da guerra na Ucrânia, com o Governo a insistir que é um problema “conjuntural” e “temporário”, apesar da realidade demonstrar mês após mês a intensificação das pressões inflacionistas em 2022, que levaram a uma aceleração da taxa. Com a inflação a rondar, em agosto, os 9%, mais do dobro do que o previsto no OE, o Executivo lançou um pacote de medidas para ajudar famílias e empresas a enfrentar a escalada da inflação, que se tem vindo a refletir sobretudo no aumento dos preços da energia e dos alimentos. Para uns, um pacote pouco imaginativo e, para outros, um pacotinho, apelidado tanto pela direita, como pela esquerda, como uma “fraude”, uma “ilusão” e um “truque”, principalmente em relação às medidas destinadas aos pensionistas.

O Banco Central Europeu (BCE) caiu na armadilha, como confirmam as maiores subidas de juro deste século (50 p.b. em julho e 75 p.b. em setembro), quando meses antes defendia também que não se tratava de um verdadeiro processo inflacionista sustentado para justificar, na primeira metade do ano, o não aumento das taxas de juro diretoras que, na realidade, estava anormalmente baixa, em correspondência com o aumento de preços. Considerou, como o Executivo português, que este era temporário e que aumentar os juros poderia provocar a reversão do processo de retoma económica. Agora antecipam-se mais subidas de juros do BCE, que o mercado projeta poderem atingir 4% dentro de três anos, o que penalizará no imediato os muito endividados, famílias, empresas e estados, o que também provocará muitos estragos na economia.

Os tempos são extraordinários e pedem medidas extraordinárias para fazer face à maior crise inflacionista das últimas décadas, numa altura em que a torneira do gás russo para Europa está a fechar-se pouco a pouco e ameaça as reservas para o inverno. Com o novo OE à porta e o BCE a estimar uma inflação de 8,1% este ano e de 5,5% em 2023, será que o ministro das Finanças vai insistir que o aumento da inflação é “circunscrito” no tempo e não adequar as medidas para famílias e empresas a esta nova realidade de inflação elevada?

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