A batalha por mais e melhor inovação

Nas Universidades estamos a atrair, a integrar e a contribuir para criar um capital humano e emocional que pode ajudar a criar e a reter talento, mas quem pode ficar?

Para sobreviver e prosperar as empresas necessitam de uma liderança estratégica baseada na inovação. A criação de inovações de maior valor acrescentado depende do conhecimento (técnico e de mercado), da adaptação ao conhecimento futuro e da criação de novo conhecimento. No entanto, segundo um estudo patrocinado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, apenas um terço dos gestores de empresas tem formação superior.

Este menor nível educacional pode gerar fragilidades técnicas e de gestão que colocam as nossas empresas numa situação desfavorável perante o conhecimento e, consequentemente, com uma menor capacidade de inovar e liderar os mercados onde operam. Acresce ainda que não temos sido especialmente atrativos de população natural dos países mais desenvolvidos (Censos 2021) e isto poderá ter influência na capacidade das nossas empresas de conhecer e penetrar mercados que, com maior poder de compra, têm capacidade de pagar produtos e serviços de maior valor acrescentado.

A qualidade do Ensino Superior em Portugal não parece ser um problema, com Instituições com elevado reconhecimento internacional. Ou seja, o instrumento para operar a mudança existe e é competente para tal. O que falta, então? Paradoxalmente, faltará a muitos a consciência de que a experiência Universitária pode adicionar valor a uma carreira construída com base na prática de um ofício.

Melhorar a consciência coletiva não será tarefa fácil, mas passará, necessariamente, por um discurso público de valorização das Instituições do Ensino Superior e da respetiva materialização desse discurso em decisões que melhorem o estatuto dos Professores e dos Investigadores na hierarquia das funções públicas. Se o Conhecimento é hoje mais importante do que nunca, que sentido faz que quem o produz e dissemina seja hoje menos valorizado pelo Estado do que no passado?

Relativamente à retenção de recursos humanos qualificados no nosso país, a razão para ficar será mais emocional do que racional. Para os nacionais, a família, os amigos, o conforto do conhecido, o clima, o mar… E para os estrangeiros que nos visitam (cada vez mais) para complementar a sua educação superior? A decisão de ficar ou ir embora é completamente racional?

Daquilo que observo na Universidade, parece-me que não. Por exemplo, no ISEG, onde leciono em Inglês Gestão da Inovação, dos trinta Alunos que frequentam esta unidade curricular optativa – do último ano das licenciaturas – tenho: sete alemães, cinco franceses, quatro portugueses, dois representantes do Brasil, da Bulgária e da Espanha e representantes únicos da Argentina, Coreia do Sul, Dinamarca, Itália, Perú, Polónia, Rússia e Suíça. Estes e outros alunos internacionais referem-me, frequentemente, que estão a gostar muito da experiência educativa e pessoal vivida em Portugal e que não se importavam de continuar por cá a fazer um mestrado e depois ingressarem numa carreira profissional.

Como curiosidade, lembro-me de ter perguntado a um aluno de Erasmus (Italiano, creio), que encontrei num contexto não académico, se ele estava a gostar da sua estadia em Portugal e de ele me ter respondido: “Sim, mas nunca estudei tanto na minha vida!”, referindo, logo de seguida e com um indesmentível orgulho, que estava a terminar o seu programa de Erasmus no Instituto Superior Técnico. Isto é um sinal de que as Universidades estão a atrair, a integrar e a contribuir para criar um capital humano e emocional que pode ajudar o país a reter e capturar talento estrangeiro de todo o mundo. Mesmo dos países mais desenvolvidos.

Mas este trabalho a montante está a ser minado por uma falta de empresas/gestores capazes de oferecer salários e condições (e.g., work-life balance) que se aproximem suficientemente do que se oferece “lá fora”. O capital emocional criado dá-nos uma vantagem, uma preferência, mas não chegamos a beneficiar desta quando oferecemos metade do ordenado conjuntamente com metade do tempo livre. Mal pagos e a poder desfrutar da beleza do nosso país apenas pela janela do escritório… quem pode ficar?

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