A campanha já começou

A campanha eleitoral para as eleições legislativas de 2015 já começou. Começou na noite de sexta-feira, 21 de Novembro, com a detenção do ex-primeiro-ministro socialista, José Sócrates. Prolongou-se depois durante o sábado, enquanto Sócrates era interrogado no Campus da Justiça e o PS elegia António Costa para secretário-geral. A campanha já está na estrada. No […]

A campanha eleitoral para as eleições legislativas de 2015 já começou. Começou na noite de sexta-feira, 21 de Novembro, com a detenção do ex-primeiro-ministro socialista, José Sócrates. Prolongou-se depois durante o sábado, enquanto Sócrates era interrogado no Campus da Justiça e o PS elegia António Costa para secretário-geral.
A campanha já está na estrada. No entanto, os carros não trazem ainda jovens com bandeiras nas mãos. Em vez disso, para já, temos carros da polícia, com o ex-primeiro-ministro do PS sentado no banco traseiro, exibido aos olhos da população para sua humilhação pública. Não percebo por que motivo nestas alturas não se usam vidros fumados de modo a impedir que o detido seja fotografado num momento em que não pode usar da palavra para defender a sua honra. A imagem da humilhação é uma condenação perpétua de um inocente e fica na mente do homem do povo. Por muito culpado que alguém possa vir a ser, ainda assim deve usufruir do direito da presunção da inocência nessa fase do processo.
As imagens a preto e branco que passaram na televisão do momento em que um carro da polícia leva José Sócrates do aeroporto para o interrogatório, trouxe-me à memória a última vez em que um ex-líder do governo foi submetido à privação de liberdade. Isso aconteceu há 40 anos, cumpridos em abril. Chamava-se ele Marcello Caetano, que após entregar o poder ao general Spínola de modo a que este “não caísse na rua”, saiu do Quartel do Carmo dentro de uma chaimite. Era “Bula”, que costuma aparecer em exposição evocativas do episódio. Ainda há uns tempos tive a oportunidade de falar com o motorista dessa chaimite, que contou a dignidade com que Marcello Caetano enfrentou a adversidade: “É a vida”, terá dito o ex-presidente do Conselho. As fotos da época mostram apenas a viatura rodeada de populares, mas não se vê o humilhado.
Há 40 anos, Marcello Caetano fez o caminho inverso de José Sócrates: foi conduzido do Carmo para o aeroporto e dali partiu para o exílio. Sócrates vinha do “exílio” em Paris quando foi conduzido do aeroporto para o interrogatório num edifício localizado junto ao Largo do Rato. Ao lado das instalações onde decorreram as primeiras diligências judiciais está a sede do PS. A mesma onde Sócrates subiu à varanda para agradecer ao povo de Portugal a confiança que lhe fora entregue democraticamente em Fevereiro de 2005, quando levou os socialistas a conquistar a sua primeira maioria absoluta.
Agora, perguntemo-nos qual foi o preço dessa eleição de Sócrates? Acaso poderá esse preço vir a atingir um ex-membro do seu governo, António Costa? Poderá o novo secretário-geral do PS alegar, legitimamente, que nunca suspeitou das notícias das suspeitas que sempre caíram sobre Sócrates? Irá o PSD e CDS usar estas ligações numa “campanha negra” e produzir cartazes com António Costa abraçado a José Sócrates? E será essa uma campanha eficaz para convencer os portugueses a não votar no PS? Conseguirá o PSD e CDS apelar aos portugueses para manterem a confiança nos “mesmos de sempre”? Conseguirá o PS dizer que não é, também ele, um “mesmo de sempre”?
Durante o ano de 2015, as imagens de Sócrates sentado no banco traseiro de um carro vão estar na mente de muitos potenciais eleitores. Os cartazes de campanha, se esse vier a ser o caminho seguido pelos estrategas, poderão dizer algo do género: “É este o PS que quer de volta?”. A campanha eleitoral para as eleições legislativas de 2015 já começou. As primeiras fotografias para futuros cartazes foram tiradas no Campus da Justiça, obra inaugurada por José Sócrates em 2009.

Frederico Duarte Carvalho
Jornalista e escritor

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