A crise da meia idade (do Governo)

Nos homens, pode ser a compra de um carro desportivo de cor berrante, uma festa grandiosa ou outros comportamentos erráticos para mostrar que a independência e a juventude estão intactas. No caso de um Governo, os sintomas de crise da meia idade (do mandato) não são assim tão diferentes. São também formas de dizer “ainda faço o que me apetece”.

O aniversário foi festejado, há três semanas, com pompa e circunstância. Se a ideia de celebrar dois anos de Executivo socialista já parecia desnecessária, a de convidar 50 cidadãos (aparentemente pagos) à festarola em Aveiro para fazer perguntas aos governantes revelava sintomas preocupantes.

Mas uma crise de meia idade não aparece de repente, costuma ser gradual e a deste Governo ainda está em curso, com o espalhar do caso Raríssimas para a política.

Após um estado de graça prolongado, no qual as previsões sobre o desmoronar da geringonça e a chegada do diabo caíram por terra, a equipa de Costa começou a mostrar sinais de perturbação de identidade em junho, quando não soube qual o seu papel na reação à tragédia de Pedrógão Grande e ao assalto em Tancos. Em vez de mostrar a serenidade, que vem com a maturidade, decidiu mostrar petulância inútil e perigosa.

O verão trouxe calma, mas os sintomas voltaram em outubro, com uma estratégia de comunicação insensível sobre novos incêndios trágicos. O comportamento provocou outro sintoma de crises da meia idade – tensões repentinas nas relações que eram estáveis.

Se Costa é o CEO da geringonça, Marcelo Rebelo de Sousa é uma espécie de chairman, imposto pelos acionistas (o eleitorado), mas com um mandato alinhado em termos de calendário e, até há pouco, de estratégia. A forma como Costa falou sobre os incêndios levou a uma crispação com o Presidente que nenhuma das partes negou e que não terminou, como se viu no alerta mal disfarçado de Marcelo sobre a candidatura de Mário Centeno ao Eurogrupo.
Pelo meio, a apresentação do Orçamento para 2018 ocorreu sem grande contestação, mas o debate final criou uma fissura em mais uma relação crucial. O recuo do PS na taxa sobre as renováveis colocou o partido em colisão com o Bloco de Esquerda. Não será suficiente para causar um divórcio, mas a relação vai ser agora de atritos, como demonstrou a troca de acusações entre Catarina Martins e Carlos César esta semana.

Este tipo de ansiedade a meio da vida não é raro nos governos. Normalmente é resolvida com remodelações que refrescam a imagem e o ambiente do Conselho de Ministros. Em casos extremos, mais frequentes em cenários de alianças de poder, podem criar crises internas que se aproximam de rotura. No Governo anterior, a demissão irrevogável de Paulo Portas foi a principal e ocorreu precisamente a meio do mandato da coligação. Foi intensa, mas durou pouco.

A crise da meia idade do atual Governo está a ser mais longa, com pouco tempo entre os episódios. Meros dias após o Costa ter admitido inabilidade no anúncio mudança do Infarmed para o Porto, o Governo já sofria mais uma baixa com a demissão de um secretário de Estado e com um ministro sénior obrigado a responder pela ligação à Raríssimas.

A reação do Governo foi rápida, o que poderá sinalizar que está a aprender com os erros. A crise da meia idade já fez danos nas sondagens e as eleições já não estão tão longe – falta menos de dois anos.

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