A docência em tempo de pandemia

O tempo em que vivemos poderá vir a ficar na história como um marco para a restruturação futura de estratégias pedagógicas e de políticas educativas.

Constatemos desde já, e antes de mais – numa inevitável aliança entre angústia e a tão necessária esperança que urge promover –, que, no ano letivo transato, vivemos, a nível global, uma invulgar, e, espero, irrepetível experiência social. Pela primeira vez na vida de todos nós, a atividade letiva de um período escolar inteiro foi desenvolvida num modelo de Ensino à Distância, por suspensão de toda a atividade presencial.

Esta conjuntura social que experimentámos e ainda estamos a vivenciar tem tanto de perversa como de extraordinária. Se, por um lado, temos sido confrontados com o receio de sermos infetados com a SARS CoV-2 e com a necessidade imperiosa de protegermos todos os membros da nossa comunidade educativa, por outro, estamos a viver um momento crucial de reinvenção da atividade docente, que tem exigido de nós uma plasticidade mental sem igual, não só pela necessidade de, em tempo útil, adquirirmos competências pedagógicas adaptadas a este modelo de ensino, mas também de mostrarmos a nossa verdadeira capacidade de comunicar, base em que, estou convicto, assenta todo o processo de ensino e de aprendizagem.

Nunca a comunicação assumiu um papel tão decisivo. O tempo em que vivemos poderá vir a ficar na história como um marco para a restruturação futura de estratégias pedagógicas e de políticas educativas. O facto de a grande maioria dos professores ter passado a usar, regularmente e com acurada acribia, uma multiplicidade de ferramentas digitais de desenvolvimento da atividade docente reflete a necessidade, urgente, de criar um ambiente de ensino que se paute pelo dinamismo que as presentes circunstâncias exigem.

Desde o início desta pandemia, assumimos a necessidade de repensar, criticamente, o processo de ensino e de aprendizagem e, por conseguinte, de adaptar a forma de avaliar (entendida como o meio de medir, aferir e auscultar a qualidade do trabalho realizado) e a necessidade, que lhe é inerente, de reorganizar as práticas de ensino. Creio que estamos bem preparados para continuar a desenvolver um trabalho de grande qualidade, mesmo quando temos de voltar a adotar um modelo de ensino remoto, dirigido a alunos e turmas que têm de cumprir um período de isolamento profilático.

O nosso percurso, ao longo de quase três décadas, é fruto de uma enorme dedicação, atitude em que agora nos apoiamos para dar continuidade a um trabalho educativo cuja excelência tem constituído, desde sempre, a nossa principal meta. Para que esta meta seja atingida, note-se que tem sido prioritária, para nós, a obediência aos procedimentos que visam a contenção da Covid-19.

Resta-nos continuar a encarar cada dia como um desafio, adotando uma atitude de atenção e solícita cumplicidade que se consubstancie na criação de um ethos de escola de base humanista, em que o elemento catalisador da transformação não resida tanto no volume de conhecimento, mas sim na genuinidade da partilha e da comunhão.

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