A estagflação (in)evitável

Este é o momento em que a grande maioria dos portugueses precisa de apoio do Estado e onde o suporte social será essencial para proteger o poder de compra das famílias com menos recursos.

O que é a estagflação? É, nem mais nem menos, uma combinação de inflação com um cenário de estagnação económica, ou seja, um cenário que termina em recessão, onde o crescimento económico é anémico ou mesmo nulo e onde a inflação escala.

A última estagflação com que o mundo se deparou foi na década de 1970 e teve na sua origem o choque petrolífero, com uma enorme subida dos preços dos combustíveis que, por consequência, fez disparar a inflação e estagnou o crescimento económico. Foram tempos difíceis de superar e os índices gerais de pobreza aumentaram um pouco por todo o globo.

A estratégia de choque utilizada para combater este fenómeno empurrou as economias para a recessão e só cerca de 10 anos depois é que a economia mundial conseguiu superar a crise. Passados quase 50 anos o mundo parece caminhar para uma nova estagflação.

A inflação na zona euro tem vindo a aumentar e o processo de combate a uma pandemia duríssima, com muitos problemas de natureza económica e financeira por resolver, não ajudou. Mas para piorar o cenário temos a guerra na Ucrânia e as consequências diretas e indiretas da guerra e também das sanções económicas impostas à Rússia.

Corremos o risco de voltar a viver na Europa um momento idêntico ao de 1970 e para confirmar as piores espectativas basta verificar os sinais que são indicadores de risco de estagflação.

A guerra na Ucrânia veio reforçar a escalada dos preços de matérias-primas e da energia e tudo isto acompanhado de um aumento contínuo da inflação, parece deixar claro que caminhamos para um cenário de abrandamento da economia que reflete a hipótese, quase inevitável, de termos uma recessão.

Embora a Presidente do Banco Central Europeu (BCE), Christine Lagarde, tenha vindo recentemente defender que a estagflação não é o cenário mais provável para a zona euro, a mesma constata que a guerra na Ucrânia está a desacelerar o crescimento económico e a acelerar a inflação, fatores que estão na origem de uma estagflação.

Mas para além das contradições de Christine Lagarde, temos a realidade do discurso do economista Nouriel Roubini, que já em meados de 2021 avançava que estávamos a entrar num processo de estagflação e de uma nova crise de dívida que teria impacto global. Já em 2022, Roubini vai mais longe e defende que o mundo e os principais blocos geopolíticos têm de ter em conta que o risco de conflitos militares em larga escala, como o que estamos a viver na Europa, interrompe a dinâmica normal do comércio e da produção ao nível global.

Além disso, complementarmente ao cenário negativo, Roubini defende que as sanções usadas para deter e punir a agressão da Rússia ao povo da Ucrânia são, por si só, de natureza estagflacionária.

Parece que caminhamos para a inevitabilidade do risco de estagflação e resta-nos procurar inverter a situação assumindo que precisamos de enfrentar a escalada da inflação e a desaceleração do crescimento económico com o recurso a políticas públicas de cariz económico e social, suportadas, em grande medida, pelos bancos centrais e pelas instâncias económicas internacionais e também por via da aplicação das medidas contracionistas necessárias, excluindo nesta fase qualquer tipo de medidas expansionistas.

Quanto às políticas públicas, em particular, deve apostar-se nas que promovam a produtividade da economia procurando o caminho da retoma e do crescimento económico. Isso passa por apostar de maneira eficaz no uso do financiamento europeu que virá por conta do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) e do Quadro Financeiro Plurianual 2021-2027.

Neste âmbito devem ser estimuladas as políticas de apoio aos que estão mais sujeitos à crise, nomeadamente os agregados mais vulneráveis que devem ser protegidos dos efeitos da inflação que incide sobre bens e serviços essenciais como a energia, a alimentação, entre outros. Este é o momento em que a grande maioria dos portugueses precisa de apoio do Estado e onde o suporte social será essencial para proteger o poder de compra das famílias com menos recursos.

Já no plano das medidas contracionistas temos o recurso a uma política monetária europeia restritiva, com a subida dos juros para conter a inflação. Associado a isto deve existir em Portugal um rigor, sem precedentes, na redução das despesas do Estado, devendo dar-se prioridade à redução da dívida nacional. Deve ainda apoiar-se as empresas para manterem os melhores níveis de produção possíveis e tentar evitar a escalada do desemprego.

As políticas contracionistas pioram o cenário da estagnação e é por isso que a boa aplicação do financiamento europeu e a hipótese de recorrer a novas fontes de financiamento europeu são cruciais para a estratégia de combate ao processo de estagflação que podemos vir a ter.

Portanto, o bom aproveitamento do financiamento europeu, políticas públicas rigorosas com uma base forte de cariz social, associadas a medidas contracionistas que garantam um Estado equilibrado, rigoroso com as suas contas e despesas e que promova o apoio às empresas e produção parece ser a solução de curto prazo.

Sejamos resilientes e esperemos que o impacto destes tempos seja o menor possível. Uma coisa é certa, o futuro é cada vez mais imprevisível por mais preparados que julguemos estar.

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