A Europa e o Dia da Marmota

Um conselho para a Europa, do Atlântico aos Urais, para ultrapassar a sua estagnação. Mais conhecimento, menos arrogância e mais abertura ao diferente e à inovação e, por último, menos medo de arriscar.

No filme “O Feitiço do Tempo”, Phil Connors (interpretado por Bill Murray) é um presunçoso e arrogante apresentador da meteorologia numa estação de televisão de Pittsburgh, enviado à pequena comunidade de Punxsutawney, para cobrir uma festa local, o Dia da Marmota, relacionada com uma infalível previsão do tempo. Obrigado a passar a noite naquela localidade, Phil, acorda no dia seguinte e descobre que voltou ao início do dia anterior. Phil ficou preso no Dia da Marmota dezenas de anos, em que todos os dias são exatamente iguais.

Imagine que tinha adormecido no início da década de 80 e acordado hoje. As capas de jornais económicos alertam para o retorno da inflação, já próxima dos dois dígitos nos EUA e a bater recordes de décadas na Europa. Na política internacional, a invasão da Ucrânia pela Rússia remete-nos para os tempos da Guerra Fria, com as ameaças dos mísseis nucleares apontados às capitais europeias, e regressa a discussão europeia em torno das vantagens da energia nuclear, desta vez como potencialmente “amiga do ambiente” em alternativa ao carvão.

Os grandes motores da economia europeia continuam a assentar nas indústrias do século XX, do automóvel à eletrónica, a caminho de se tornarem obsoletos. Não há nenhuma empresa europeia nas vinte maiores do mundo na área das tecnologias de informação e comunicação. Os novos motores escolhem outras paragens, deixando-nos presos a glórias e a guerras passadas.

“O que você faria se estivesse preso num lugar e todos os dias fossem exatamente iguais e nada do que você fizesse importasse?”, pergunta Phil a dois moradores de Punxsutawney, que poderia ser também a pergunta aos europeus. No filme, o feitiço do tempo termina quando o personagem principal reconhece os seus erros, deixa de agir de forma egoísta e aprofunda o seu conhecimento em novas áreas.

Talvez seja este o conselho para a Europa, do Atlântico aos Urais, para ultrapassar a sua estagnação. Mais conhecimento, menos arrogância e mais abertura ao diferente e à inovação e, por último, menos medo de arriscar.

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