A Europa num castelo de cartas!

A velha e sempre Europa já foi o palco de inúmeras transformações políticas e socioeconómicas. Ao longo dos seus mais de 30 séculos de história clássica pôde observar, o surgimento e a ruína de vários impérios, o domínio dos mares, a conquista e o iniciar de um novo mundo à sua imagem, a era industrial […]


Notice: Undefined offset: 1 in /var/www/vhosts/jornaleconomico.pt/httpdocs/wp-includes/media.php on line 1031

Notice: Undefined offset: 2 in /var/www/vhosts/jornaleconomico.pt/httpdocs/wp-includes/media.php on line 1031

A velha e sempre Europa já foi o palco de inúmeras transformações políticas e socioeconómicas. Ao longo dos seus mais de 30 séculos de história clássica pôde observar, o surgimento e a ruína de vários impérios, o domínio dos mares, a conquista e o iniciar de um novo mundo à sua imagem, a era industrial no seu esplendor mas também no seu declínio. No entanto, nos dias que correm, está perante mais um complicado desafio. Pois as consequências desta crise humanitária dos refugiados que estamos a assistir, bem como a sua gestão vão ter um forte impacto na UE, muito para além do que possamos prever.

No século XX a Humanidade e em especial a Europa elevaram a sua decadência ao seu exponente máximo, com o iniciar das duas grandes guerras que dizimaram cerca de 100 milhões de seres humanos no espaço de 30 anos (contanto com os genocídios do povo Arménio e do povo Judeu), e reduziram este velho e sábio continente a escombros e ao pó. Ao que nos anos 50 do século XX a Europa teve que reerguer-se das cinzas, contando com a ajuda da sua antiga colónia “dourada” os EUA através do famoso Plano Marshall, e com isso formalizou-se um sonho europeu já antigo, que vêm desde o primeiro tratado para uma Europa Unida escrito pelo Abade de Saint-Pierre “Projeto para Tornar Perpétua a Paz na Europa” em 1713. Corria assim o ano de 1951 quando por fim a Europa se uniu, com a assinatura em Paris do tratado que formalizava a CECA – Comunidade Europeia do Carvão e do Aço, composta por 6 países (RFA, Itália, França, BENELUX), os mesmos que em 1957 fundaram a CEE – Comunidade Económica Europeia, iniciando assim a construção da base de um belo castelo de cartas.

No entanto a questão e o objeto a que proponho analisar, baseia-se sobre o qual o futuro da União Europeia? E quais as reais consequências desta crise humanitária para a Europa?

Para responder a estas questões, vou-me centrar numa pequena análise aos objetivos principais que marcaram o início da integração Europeia:

1) Reconstruir a Europa do ponto de vista estrutural e económico, com base em incentivos ao crescimento económico através dos investimentos na indústria e na agricultura aproveitando a abertura do comércio Europeu e posteriormente o comércio Internacional (Fundação do GATT em 1947).

2) Criar uma zona onde a liberdade e a cidadania dos seus povos possam ser uma realidade, usufruindo de um espaço físico alargado sem fronteiras, e das garantias e direitos democráticos proporcionados pelos Estados. Cujo objetivo principal era perpetuar a paz na Europa, e incentivar a interajuda humana e económica.

Relativamente ao primeiro ponto, a Europa encontra-se em plena crise do seu modelo de desenvolvimento. Com o crescimento económico ténue, acentuado pelas dualidades nas economias do Norte e do Sul (faltando um verdadeiro mecanismo de compensação económica entre ambos os espaços), a constante migração jovem-qualificada que sofrem os países do sul, e o grave problema demográfico que se vai acentuando em toda a Europa. Ao que se acrescenta o recente o problema grego, que expôs as fragilidades da construção do euro e está a por em causa a própria conceção da União Europeia. O que Demonstra que a Europa está a falhar aos poucos no cumprimento dos seus objetivos socioeconómicos, e está a deixar cair “algumas das suas cartas mais preciosas da sua estrutura”.

Ficando assim de pé o segundo objetivo, de forma a sustentar o espírito da UE, no qual a má gestão desta recente crise pode por em causa o mesmo. Visto que a União tem sido pouco diligente na resolução do problema destes refugiados, como podemos ver pelas últimas críticas que têm surgido relativamente a esta matéria, em especial as últimas declarações do Engº António Guterres – Alto-comissário para os refugiados da ONU, que aponta o dedo para as falhas da União Europeia perante esta crise.

No entanto o maior perigo vem de dentro da própria União, pois esta crise está a fazer ressurgir os fantasmas ideológicos do início dos anos 20 e 30 da Europa, com os movimentos de extrema-direita a mostrarem alguma força dentro da UE. E com essa força estamos perante um xeque ao modelo sociopolítico gerado no pós-guerra, perigando assim as liberdades e garantiras dos povos europeus, como é o recente exemplo de se fechar o espaço Schengen, e a forma como alguns países estão a tratar os grupos de refugiados, no qual as regras do trato humanitário básico estão a ser postas de parte. O belo sonho europeu pode estar em causa, caso a democracia, liberdade, e os direitos humanos não sejam uma realidade no seu pleno, pois sem essa garantia democrática que a Europa oferece, o “castelo” eventualmente acabará por cair!

 

André Brás dos Santos

Gestor e Mestre em Desenvolvimento e Cooperação Internacional – ISEG

bras_dos_santos.a@hotmail.com

Recomendadas

A voz da metamorfose

Arquitetos e urbanistas são chamados a desenhar soluções criativas integradas em estratégias maiores, onde é dada voz a uma consciência social e política que tem especial atenção a contextos sociais diversificados.

Uma emergência climática

Portugal não é um país frio, comparando com o resto da Europa, mas é um país pobre, mal gerido e de prioridades trocadas.

Portugal perde com a Roménia e falha ‘final four’

As grandes transformações económicas e sociais de que o país precisa para corrigir a trajetória da divergência em relação à Europa não dependem da quantidade de dinheiros comunitários. Depende da conceção estratégica que se quer para Portugal.