A fileira têxtil

Na produção, as empresas portuguesas nada ficam a dever às italianas, tidas como “topo mundial”. Então o que nos separa de Itália?

Já lá vão uns bons anos em que sabia/conhecia um pouco destas indústrias por dentro. Atravessei o período alargado demais em que dominava a tese de que indústria tradicional em Portugal ia ser para descartar.

Um período difícil, talvez necessário, em que as grandes empresas “tradicionais” (recuadas no tempo, que se deixaram atrasar, produzindo sem qualidade) fecharam, em grande parte acompanhadas também por muitas multinacionais que se tinham implantado em Portugal para o aproveitamento da mão-de-obra barata em produtos de baixa qualidade e pouco valor acrescentado, e que se deslocalizaram para outras paragens para continuarem a explorar a mão-de-obra barata.

Como alerta, acabou por dar efeito, contribuindo para impulsionar a modernização total das indústrias da fileira têxtil. Tardou algum tempo a dar a volta e, nesta volta, surgiu uma nova geração de empresários com um papel relevante consequente. Hoje, a fileira têxtil é bem outra. Mas urge estar atento. Prosseguir cada vez mais com a inovação em todas as áreas e sobretudo naquelas em que as debilidades são ainda determinantes para a competitividade.

No seu conjunto, a fileira deve gerar um volume de negócios em torno de 10 mil milhões de euros, a trabalhar para o mundo inteiro e com presença nas feiras de maior prestígio mundial, e um volume de exportação que nestes anos de crise até tem contrariado a tendência geral. Em 2015, as exportações cresceram cerca de 5%, sendo as perspectivas de 2016 bastante favoráveis.

A indústria consolidou-se em diversas frentes, graças à acção dos empresários que apostaram na inovação e evolução tecnológica, utilizando bem os fundos comunitários, a sua dinâmica e estratégias adequadas, fruto de um conhecimento amadurecido. As associações empresariais, umas mais, outras menos, em associação com diversas instituições públicas foram também determinantes na transformação destas indústrias. Constituíram e desenvolveram em conjunto laboratórios e centros tecnológicos de investigação e inovação que já estão a dar os seus frutos há uns bons anos.

Essa adaptação das indústrias têxteis e vestuário ao mercado materializou-se na maior flexibilidade produtiva, na diferenciação, na inovação, na incorporação de moda e tendências nos produtos que saem das fábricas nacionais e na competitividade de preços. A própria fábrica também mudou. As grandes empresas praticamente deixaram de existir e as que existem adoptaram uma outra filosofia, aproximando-se do tipo de funcionamento da PME, predominante no tecido empresarial deste conjunto de indústrias.

Na produção, as empresas portuguesas nada ficam a dever às italianas, tidas como “topo mundial”. Então o que nos separa de Itália? É, sobretudo, a área da comercialização, onde não há ainda quadros com preparação suficiente e conhecimentos para agir no mercado global. Infelizmente, não é só no têxtil e vestuário. A comercialização continua a ser uma grande pecha nacional.

As empresas padecem de uma longa história de trabalho para terceiros, não para os mercados e, nesta situação de dependência, a evolução e a actualização concentraram-se mais no campo fabril onde atingiram uma elevada craveira. Em algumas áreas ainda se registam bastantes atrasos e, daí, as fragilidades.

Sem dúvida, somos quase sempre exímios a produzir. Até as Universidades canalizaram muito mais o seu ensino nesta linha. Temos excelente mão-de-obra directa, havendo, no entanto, aqui e ali, algumas deficiências ao nível da direcção e coordenação da produção. Mas é, sem dúvida, a parte da comercialização que nos impede atingir tão cedo, o nível de Itália nos mercados.

E então surge-nos a interrogação. Se estas indústrias progrediram tão bem noutros domínios, porque não há um investimento forte nestas áreas para que a competição com Itália se torne mais eficaz? Bem, aqui as barreiras continuam a ser enormes. Um bom comercial parece que não sai bem formatado do banco das escolas (universidades). Estou a referir-me sobretudo a chefias de topo. A sua aprendizagem tem de fazer-se ao nível da empresa ou de grupos e demora muitos anos. Conseguir directores comerciais que conheçam e dominem os diferentes mercados não está ainda ao alcance da maioria das nossas empresas.

Ainda há muito para conquistar. E será que algum dia chegamos ao topo de gama em produtos de alta gama? Ou Portugal deve apontar para a gama média-alta? Termino com esta dúvida interrogativa.

O autor escreve segundo a antiga ortografia.

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