A fome como arma de guerra

Se permitirmos que a fome seja de novo usada como arma de guerra, então já estamos a perder a guerra contra a Rússia com a nossa passividade. O que julgávamos ter ficado para trás, nos livros de História, pode tornar-se o novo normal.

Temos lido as notícias preocupantes sobre uma nova crise global alimentar desencadeada pela invasão russa da Ucrânia. Ambos os países estão entre os principais exportadores mundiais de cereais e outros bem essenciais, colocando em perigo o abastecimento alimentar de várias regiões do globo, em particular de países em desenvolvimento.

Deixem-me contar-vos, de forma sucinta, uma história sobre fome e de como é sempre usada como uma arma política em tempos de guerra. Muitos já não se recordarão deste momento na História, mas entre 1915 e 1918 ocorreu, no Líbano, a Grande Fome do Monte Líbano.

Houve razões ambientais, uma seca severa ­– e ainda uma praga de gafanhotos que afetou grande parte dos terrenos de cultivo –, mas o pior viria da parte dos próprios governantes otomanos que decidiram isolar as montanhas do Líbano e bloquear-lhes o acesso a cereais e trigo, provocando uma calamidade. Especulação de preços, péssima gestão em tempo de guerra com rações a serem desviadas para forças militares, crianças a agonizar de fome nas ruas e até relatos de canibalismo foram algumas das consequências. Seguiram-se, claro, epidemias de malária, disenteria e febre tifoide. Cerca de 200 mil pessoas morreram como resultado da Grande Fome.

Parece distante no tempo, mas ocorreu há pouco mais de um século. A Federação Russa já demonstrou que sabe como arquitetar e lançar uma guerra recorrendo aos métodos mais primitivos e bárbaros do século passado. O bloqueio e destruição dos terminais de escoamento de cereais ucranianos é a prova de que esta é uma guerra que não se trava apenas em território ucraniano, mas tem a capacidade de gerar efeitos devastadores globais a curto prazo.

Os russos podem não estar a ganhar esta guerra de forma fulminante, como inicialmente previsto, mas a pressão que colocam na Europa, com vagas sucessivas de refugiados e o impacto do aumento de preços em bens essenciais, é suficiente para gerar uma tempestade de consideráveis proporções. E ainda só decorreram pouco mais de 100 dias… Acresce que o Programa Mundial Alimentar das Nações Unidas (PAM) costumava comprar à Ucrânia metade dos cereais que necessita para alimentar os 115 milhões de pessoas que ajuda todos os dias.

Portugal encontra-se numa situação relativamente controlada por estar integrado nessa grande rede de segurança coletiva que é a União Europeia. Não lhe faltarão incentivos financeiros europeus nos próximos anos para que baixe a sua enorme dependência de importação de trigo, mas muitos outros países não têm igual sorte. Os problemas de distribuição e logística que persistem na sequência de dois anos da pandemia de Covid-19, as alterações climáticas que têm causado secas extremas ou cheias e, agora, o aumento galopante dos preços de cereais, fertilizantes e óleos vegetais devido à guerra, aumentaram os níveis de insegurança alimentar a níveis aflitivos.

Se permitirmos que a fome seja de novo usada como arma de guerra, então já estamos a perder a guerra contra a Rússia com a nossa passividade, ao aceitarmos colocar em perigo a vida de milhões de pessoas. Aquilo que julgávamos ter ficado para trás, nos livros de História, poderá tornar-se o novo normal.

Recomendadas

‘Off-site’

Em Portugal, arquitetos e indústria da construção têm-se mostrado relutantes em discutir pré-fabricação e sistemas modulares customizados. Importa refletir sobre o seu potencial de futuro.

O circo do novo aeroporto, o domador e o leão

O domador achava que era leão e o engolidor de fogo vestia-se de trapezista – determinado a não adiar a concretização de uma solução fundamental para o país e o trapezista de Belém vestia-se de engolidor de fogo.

Lisboa regrediu quase cem anos

Nos últimos 40 anos, Lisboa perdeu 260 mil habitantes, devido a más políticas públicas, a inércia administrativa e a transformações económicas, algumas das quais inevitáveis.
Comentários