A fronteira entre a droga e o remédio

É um dos típicos casos em que “paga o justo pelo pecador”. A maioria das pessoas ainda franze a testa quando alguém lhe fala do poder terapêutico de alguma planta alucinogénia, como a cannabis. Normalmente esse tipo de conversa sai da boca de um primo hippie ou da vizinha vegana. Pelo menos, é assim que […]

É um dos típicos casos em que “paga o justo pelo pecador”. A maioria das pessoas ainda franze a testa quando alguém lhe fala do poder terapêutico de alguma planta alucinogénia, como a cannabis. Normalmente esse tipo de conversa sai da boca de um primo hippie ou da vizinha vegana. Pelo menos, é assim que muitas pessoas vão desvalorizando o facto em questão.
Quem me conhece sabe que nunca fui apologista de drogas, nem das chamadas leves. Sempre fui do clube das “certinhas”. Por isso, garanto o máximo de imparcialidade que alguém com opiniões pode prometer.
Esta semana, no Brasil, por causa de uma reportagem da TV Globo, voltou à tona a polémica em torno da produção e comercialização da cannabis, mesmo que para fins medicinais.
O problema ganha dimensão porque não estamos apenas a falar de tratamentos ligados a ansiedade, mas sim de controlar sintomas de doenças incapacitantes, que podem mesmo terminar em morte. Muitos desses casos graves são vividos por crianças.
Os pais veem os filhos, com doenças raras – que sofrem de epilepsia ou autismo – encontrarem no canabidiol a única resposta. Mesmo que comprovada a necessidade da substância, a lei brasileira dificulta a compra do produto. Por ser proibida a produção de cannabis no Brasil – onde é extraído o cannabidiol – é necessário importá-lo dos EUA. Estas importações são taxadas absurdamente. Para se ter uma ideia, um único frasco pode custar cerca de 2500 euros.
Sabendo do drama de várias famílias, um grupo de cariocas decidiu dar novo uso à produção caseira de cannabis. Montaram uma verdadeira fábrica amadora de produção de medicamentos extraídos da planta. Produzem artesanalmente o remédio, com a ajuda de um médico. Quando pronto, doam a famílias que precisam, a custo zero. Uma espécie de “Dr. White, de Breaking Bad, meets Robin Hood”.
Apesar da boa ação, os inexperientes farmacêuticos encorrem numa pena de, no mínimo, dez anos de cadeia, por venda de medicamento sem supervisão da ANVISA (Agência Nacional de Vigilância Sanitária). A esses dez anos acrescem mais cinco se forem julgados por tráfico de droga.
Na pesquisa sobre o tema, deparei-me com um livro de Chris Conrad sobre o uso medicinal e nutricional da “maconha”. Uma passagem chamou-me particularmente a atenção. Há vários séculos que a cannabis é prescrita para tratamento de sintomas variados. Mas foi no séc. XX, nos seus anos 30, que se “diabolizou” a planta. O livro sugere que o ataque teve origem em interesses económicos. Os produtores de algodão norte-americanos tinham, na cannabis, o seu maior inimigo. A fibra da planta era a principal concorrente na produção de tecido. Aproveitando-se do aspeto alucinogénio, os algodoeiros lançaram uma campanha de descredibilização da cannabis. E resultou.
Será que a propaganda foi tão bem feita que ainda hoje respingam, em nós, resquícios de uma teoria da conspiração?
Comparemos com o álcool, que faz inúmeras vítimas, provavelmente mais que a cannabis, mesmo que esta fosse 100% legalizada.
Apesar de se fazerem várias campanhas de consciencialização dos perigos dos excessos do consumo de bebidas alcoólicas, dificilmente serão banidas do mundo ocidentalizado. Há quem beba um copo de vinho à refeição (dizem inclusivé que faz bem ao coração). Mas a maioria bebe socialmente, muitos para esquecerem os problemas do dia a dia, ou seja, como uma fuga entorpecente.
Cientistas e médicos, por todo o mundo, defendem a prescrição de canabidiol. Mas que bebida alcoólica o seu médico lhe receitou recentemente?
Vale a pena pensar nisto.

Juliana Pereira Martins
Jornalista

Recomendadas

Os seis efeitos nas eleições de 2022 em Angola

O primeiro efeito é o fim da maioria qualificada do MPLA. O que significa que nenhum partido consegue per se realizar uma revisão da Constituição e que a UNITA passou a ter o poder de vetar qualquer projecto de alteração constitucional.

Mudar o futuro coletivo

Os professores devem assumir um papel ativo nas novas abordagens pedagógicas. Só desta forma será possível responder às questões de fundo do século XXI.

O Orçamento do Estado para 2023 e as empresas

A proposta de Orçamento do Estado para 2023 vai ser conhecida no próximo mês e os temas relacionados com as empresas prometem ser um dos pontos fortes do documento, a começar por uma eventual descida do IRC.