A “geração like” entra nas empresas

Em jeito de conclusão, há uma nova geração de colaboradores que está a ensinar as empresas (e os seus gestores) a não mandar, mas a ter de liderar, tal como uma nova geração que necessita de saber esperar pelo seu tempo.

Nestes últimos meses tenho-me cruzado com vários gestores de empresas a desabafar com as dificuldades de contratação, retenção ou exigências “superstar” desta nova geração que começa a entrar no mercado de trabalho. Por razões várias, o mercado tecnológico destaca-se neste enquadramento.

Como alguém me disse, neste momento estamos numa fase em que já não somos nós que fazemos entrevistas, mas somos nós os entrevistados, dado o volume de questões como: “é em teletrabalho?”, “posso só fazer o que gosto?”, “serei líder de equipas?”, entre muitas outras. Isto para além do desabafo de outro conhecido gestor da “praça”, que me diz que no “contrato tem de estar que não têm de se deslocar à empresa”!

Será normal? Eu gostava (e gosto) de pensar que não, mas receio que há uma tendência (demasiado) elevada para normalizar estas situações, tornando-as um facto.

Esta geração, que denomino como a “Geração Like” (em vez de Geração Z), cresceu já no século XXI em plena vivência digital e, em particular, no entranhar de realidades de redes sociais de viver na adrenalina da quantidade de likes ou dos cinco segundos de swipes e drill-downs dos TikToks ou Instagrams.

Haverá algum problema com esta Geração? Não. À semelhança do que sempre houve, existem “generation gaps”, sendo que a esta geração (e generalizando, obviamente) há demasiada falta de realidade física, de contacto social, de saber olhar nos olhos, de plantar alfaces, trepar às árvores, jogar à bola na rua. Ou seja, estamos perante uma geração que tem vivido demasiadas realidades imediatas em pequenos ecrãs, sem emoções reais e com desprendimentos fáceis sem consequências.

Será isso um risco para as empresas e para a sua sustentabilidade? Talvez sim, nem que seja porque a maioria dos líderes empresariais não sabe o que motiva esta geração. Mas também porque uma empresa faz-se de forma estruturada, com tempo e visão (ignoro neste enquadramento a má gestão).

Esta sustentação não é compatível com desprendimentos, nem com o não  assumir de responsabilidades ou amuos sintomáticos da “Geração Like”. Estamos perante novos desafios organizacionais para criar culturas de empresa, as quais necessitam de pessoas presentes e alinhadas, ao que acrescem as necessidades de ter o produto ou serviço entregue “naquele dia”.

Como me confidenciaram: “como posso assegurar que entrego o projeto se não sei se amanhã o colaborador está lá? Um dia acorda e pode-lhe apetecer não ir, apenas isso”. Um drama de facto!

Estou convencido que irão prevalecer as empresas que forem exigentes nas suas regras de gestão ética e cultura flexível, e nunca autoritárias ou lascivas, tal como se destacarão nesta “Geração Like” aqueles novos profissionais que souberem entender a realidade do mundo e a imaginação digital, garantindo um equilíbrio entre as necessidades de responsabilidade e compromisso, bem como ambicionar o equilíbrio do trabalho com a qualidade de vida.

Em jeito de conclusão, há uma nova geração de colaboradores que está a ensinar as empresas (e os seus gestores) a não mandar, mas a ter de liderar, tal como uma nova geração que necessita de saber esperar pelo seu tempo com aquisição de experiência e responsabilizar-se por projetos e compromissos.

Disclaimer: tenho quatro filhos dos 5 aos 19 anos, leciono na universidade há mais de 15 anos e faço contratação (e alguns despedimentos) de colaboradores, bem como gestão de pessoas há cerca-se 25 anos, com alguns erros de percurso também, pelo que já vivi e vivo alguns destes dilemas que partilho aqui. A aprender com esta “Geração Like”!

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