A importância do bem-estar financeiro dos trabalhadores

2023 será um ano verdadeiramente desafiante para os portugueses, quer sejam trabalhadores, ou empregadores, pelo que criar as condições para ultrapassar cenários de crise com bem-estar financeiro e emocional é uma obrigação que está nas mãos de todos.

A atual conjuntura económica está a colocar os portugueses sob uma grande pressão. No último ano, devido à inflação, um cabaz básico de consumo alimentar para um adulto de 40 anos aumentou 21%, segundo o Banco de Portugal, e a situação é já mesmo insuportável para 400 mil famílias portuguesas que recorrem ao Banco Alimentar.

Também a subida das taxas Euribor, que já atingiram níveis históricos, tem impactado o orçamento familiar, deixando cada vez menos ao final do mês para poupanças, imprevistos ou investimentos. Uma tempestade perfeita para o recurso ao microcrédito. O cenário é igualmente desafiante para as empresas, que enfrentam uma subida de custos significativa, e para as quais a subida de salários para apoiar os seus colaboradores não é sustentável. Assim, como podem os empregadores atuar e evitar que os seus trabalhadores entre num ciclo de endividamento difícil de sair?

Um contexto como o atual exige uma elevada resiliência financeira – o tipo de resiliência que aqueles com muita literacia financeira são capazes de mostrar. Contudo, estudos do Banco Central Europeu mostram que os portugueses estão em último lugar no ranking da literacia financeira.

Por outras palavras, têm menor conhecimento dos termos financeiros e de como gerir os seus rendimentos de forma a cobrir as suas despesas e conseguir ainda poupar e investir, numa perspetiva a longo prazo. Assim, e uma vez que os ciclos económicos exigirão esta resiliência várias vezes ao longo da vida, é urgente que se colmate esta lacuna da sociedade portuguesa. E a quem se pode atribuir esta responsabilidade? A cada um de nós, ao sistema educativo – que deve introduzir estes temas em fases cada vez mais iniciais da vida -, e, em última instância, até às próprias empresas.

Como podem, então, as empresas realmente contribuir para o bem-estar financeiro dos seus trabalhadores, evitando o recurso ao endividamento e promovendo o desenvolvimento da sua literacia financeira?

Por um lado, pode adotar o modelo de pagamento flexível, que já se realiza noutros países e que dá maior liberdade aos colaboradores de gerir o recebimento do seu salário de acordo com o momento em que se encontra. Com uma cultura cada vez mais “on demand”, a gestão das finanças pessoais nem sempre se enquadra com um pagamento único ao final de cada mês. Adicionalmente, em situações imprevistas, como problemas com o carro ou de saúde, esta modalidade apoia a pessoa num momento menos positivo e dá-lhe uma alternativa ao crédito.

Por outro, o empregador pode assumir-se como um impulsionador da literacia financeira, dando ferramentas à sua equipa para o efeito, como, por exemplo, o acesso a conteúdos relevantes, a avaliação do seu conhecimento sobre o tema e o contacto com profissionais especializados, capazes de dar um acompanhamento individual, personalizado e confidencial.

De facto, atuar em prol do bem-estar financeiro dos trabalhadores pode ter um impacto muito positivo na empresa. Um estudo da PwC mostrou que um colaborador com problemas financeiros será menos produtivo, sentindo impacto na sua saúde mental, na sua autoestima e na sua lealdade à organização.

O estudo indica que 65% dos colaboradores que se sentem stressados face às suas finanças procuram outros empregos com melhores salários e 76% afirma que esta questão afeta a sua produtividade de forma negativa. Assim, assumir este papel é, na verdade, uma forte ferramenta de atração e retenção de talento – especialmente relevante, num contexto de elevada escassez de talento, em que é o trabalhador que escolhe a empresa.

2023 será um ano verdadeiramente desafiante para os portugueses – quer sejam trabalhadores, ou empregadores -, pelo que criar as condições para ultrapassar cenários de crise com bem-estar financeiro e emocional é uma obrigação que está nas mãos de todos. As empresas que assumirem o seu papel mais rápido terão uma vantagem competitiva que poderá refletir-se em trabalhadores mais felizes e em melhores resultados operacionais.

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