A indústria é ‘sexy’

É necessário um sistema de ensino mais ajustado à dinâmica própria da indústria, sobretudo no que se refere aos cursos profissionais para alargar as oportunidades de carreira dos jovens.

Nas décadas de 1980-90, ser industrial ou trabalhar na indústria tinha um reconhecimento social que hoje não é tão notório. A terceirização da economia e o crescimento dos setores de bens não transacionáveis são, em grande parte, responsáveis por esta desvalorização da indústria na nossa sociedade, a partir da década de 2000. O setor secundário passou a ser pouco atrativo em termos de carreira empresarial ou profissional, designadamente entre quadros dos grandes centros urbanos. Isto apesar de a indústria ter mantido uma grande preponderância nacional na geração de valor, emprego, investimento e exportações.

Nos últimos anos, assistimos à revalorização do papel da indústria na economia. Perante as dificuldades de financiamento do país e o consequente processo de ajustamento da troika, Portugal foi forçado a olhar com outra atenção para os setores de bens transacionáveis. Setores, esses, que são essenciais ao aumento das exportações e, por esta via, ao equilíbrio da balança comercial e à redução da dívida externa. Refira-se que, após a crise, o peso das exportações no PIB atingiu o maior valor de sempre: 43%.

Estes números resultam do aumento da competitividade internacional da indústria portuguesa, que tem vindo a conquistar quotas de mercado. No setor secundário estão muitas das PME mais exportadoras, cuja capacidade de vender ao exterior é baseada em produtos inovadores e diferenciados. Trata-se de empresas que apostaram na inovação, na tecnologia, no desenvolvimento de produto e na internacionalização, sendo hoje exemplos do que deve ser a indústria na economia do conhecimento.

Estas PME industriais reúnem, à partida, excelentes condições para o desenvolvimento de uma carreira profissional. No entanto, a indústria não é ainda verdadeiramente sexy aos olhos dos portugueses, em particular das novas gerações. Desde logo, porque o nosso sistema de ensino não está vocacionado para a indústria, sobretudo ao nível dos cursos profissionais, como já referi noutros artigos. Ora, sem competências para as atividades industriais, é mais difícil que os jovens se interessem pela indústria, que por isso se encontra deficitária de mão de obra especializada.

Um outro óbice à capacidade de atração de jovens pela indústria é o nível remuneratório do setor, que, apesar dos recentes progressos, ainda é mais baixo do que o dos serviços. Em 2015, o salário médio na indústria era de 751 euros, enquanto nos serviços era de 842. A diferença está cada vez menos acentuada, devido ao recente crescimento de vários setores industriais (têxteis, calçado, mobiliário, metalomecânica, etc.), bem como ao défice de capital humano que vai fazer disparar os vencimentos na indústria.

A subida dos salários na indústria está ainda dependente da produtividade, dos custos das empresas e do valor acrescentado dos seus produtos. A produtividade, por seu turno, decorre do nível de qualificações dos trabalhadores, questão que já aqui abordei. É necessário um sistema de ensino mais ajustado à dinâmica própria da indústria, sobretudo no que se refere aos cursos profissionais. Estes cursos devem alargar as oportunidades de carreira dos jovens e, deste modo, suprir as necessidades de pessoal especializado da indústria.

O nível remuneratório da indústria é também penalizado pelos custos de contexto, designadamente a fiscalidade que impende sobre as empresas dos setores intensivos em mão de obra. Refiro-me, por exemplo, à TSU, que onera especialmente a indústria produtiva, onde se incluem os nossos setores tradicionais. Creio que uma redução da TSU e um alívio fiscal sobre a taxação das horas extraordinárias, subsídios de turno e prémios de desempenho a favor do colaborador permitiriam subir salários, criar mais emprego e reforçar a competitividade e produtividade da indústria portuguesa.

Outro fator com impacto nas remunerações é o valor acrescentado dos produtos. Para pagar melhores salários, é necessário não só vender mais, mas, sobretudo, vender mais caro. Foi o que fez, por exemplo, a indústria do calçado, que hoje produz os segundos sapatos mais caros do mundo. São sapatos que, para além da qualidade, têm marca própria, apresentam um design cuidado, seguem as tendências de moda e são inovadores.

A indústria tem todas as condições para ser cada vez mais sexy, assegurando uma carreira empresarial e profissional bem-sucedida aos jovens e trazendo de volta o orgulho nacional de um setor campeão das exportações e que se bate hoje com os melhores do mundo em projetos de elevado valor acrescentado!

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