“A internacionalização do tecido empresarial está muito longe do seu termo”

Pedro Pessoa e Costa, vice-presidente da Aicep – Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal, além dos mercados tradicionais, identifica e aposta em três regiões com potencial de crescimento e de reforço do relacionamento económico: a Ásia – quer o Extremo e Médio Oriente –, a América do Sul e África. Segundo aquele responsável, […]

Pedro Pessoa e Costa, vice-presidente da Aicep – Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal, além dos mercados tradicionais, identifica e aposta em três regiões com potencial de crescimento e de
reforço do relacionamento económico: a Ásia – quer o Extremo e Médio Oriente –, a América do Sul e África. Segundo aquele responsável, Portugal exporta cerca de 42% de tudo o que produz.

Pedro Pessoa e Costa é um dos oradores do fórum internacional Investe Nordeste, um evento empresarial destinado a investidores que queiram entrar no mercado nordestino brasileiro, do qual o OJE é media partner. O fórum terá lugar no Centro de Convenções do Recife, no estado de Pernambuco, nos dias 25 e 26 de Novembro.

O principal objetivo do Investe Nordeste, é ajudar a criar uma atmosfera favorável para investidores internacionais interagirem melhor com altos executivos nacionais e entidades governamentais brasileiras. A expetativa é que sejam formalizadas parcerias/sinergias com entidades nacionais e internacionais que tenham interesse em investir no Nordeste brasileiro e também assinado um número significativo de protocolos de entendimento entre as partes presentes.

Mais informações estão disponíveis no endereço http://investenordeste.com.br.

 

Quais os mercados em que a Aicep mais tem apostado nos últimos três anos?

A Aicep – Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal tem apostado em dois tipos de mercados: nos tradicionais, como por exemplo Espanha, França, Alemanha e Angola, por serem os principais parceiros comerciais do país, mas também tem tentado ajudar as empresas a entrar em novas geografias, geografias que estão a gerar novas oportunidades. Hoje encontramos três regiões que pelo seu potencial de crescimento e de reforço do relacionamento económico mereceram a aposta da Aicep: a Ásia (quer o Extremo Oriente, quer o Médio Oriente e, nomeadamente, as economias do Golfo), a América do Sul e África.

Quais os mercados em que as empresas portuguesas terão maiores possibilidades de sucesso, na exportação e na presença física?

Essa é uma questão demasiado abrangente. Não há uma regra, por assim dizer, para o sucesso da internacionalização de uma empresa. E é para isso que a Aicep tem muitas vezes alertado as empresas portuguesas. O sucesso de uns num determinado mercado não significa que todos tenham sucesso nesse mercado. Ou seja, as empresas devem ter bem presente quais são os seus objetivos, quais as necessidades dos consumidores e que produtos ou serviços têm para oferecer, apostar na qualidade e na competitividade e, muito relevante, ter um conhecimento muito pormenorizado do mercado e do sector em que se irão internacionalizar. Estes são em termos gerais os “segredos” do sucesso. Resumindo, e respondendo diretamente à sua questão, diria que as empresas portuguesas terão mais sucesso quanto melhor se preparem antes de embarcarem para outros mercados. E a experiência diz-me que as empresas portuguesas conseguem vencer em qualquer mercado, mas as que melhor se prepararam apresentam resultados mais cedo e mais sustentáveis.

Como é um dos oradores do Fórum Nordeste Investe, o Brasil é uma boa aposta?

O Brasil é e tem sido um mercado prioritário para as empresas portuguesas. Os valores de exportação e de investimento nos últimos anos assim o provam. E, naturalmente, o Investe Nordeste é uma boa aposta no sentido de mostrar as oportunidades que essa região tem para as nossas empresas.

Os empresários queixam-se muito do excesso de burocracia e de entraves alfandegários no Brasil. Como pode a Aicep ajudar a ultrapassar esse problema?

A Aicep tem vindo a ajudar no desbloquear de determinadas situações no que se refere a tramites legais do mercado, seja por contato direto com as autoridades, seja pelo encaminhamento para as entidades certas, seja no esclarecimento de diversas situações. Uma coisa é importante para as empresas: planear e fazer o processo de exportação de forma correta e sem margem de erros. Todas as semanas somos solicitados a intervir neste sentido.

Tirando os grandes grupos, não são muitos os casos conhecidos de parcerias entre diferentes empresas para avanços no estrangeiro. A que se pode dever isso? As parcerias não funcionam? As PME não gostam de parcerias no exterior com concorrentes internos?

Desculpe mas não posso concordar consigo. O que temos verificado é que as empresas portuguesas têm vindo cada vez mais a estreitar laços económicos com parceiros internacionais. As empresas portuguesas têm um conhecimento cada vez mais apurado da importância de vencer no estrangeiro em parceria. Mas mais uma vez, cada mercado e cada sector tem a sua especificidade. Mas a Aicep acredita que as parceiras funcionam e são muitas vezes factor diferenciador para se vencer neste mercado global. Aliás é esta a mensagem que transmitimos às empresas nacionais.

Sei que defende, por exemplo, a parceria entre empresas chinesas e portuguesas em Moçambique. Onde entra o papel da Aicep neste caso?

Portugal, tendo em conta a sua história, localização geográfica e o facto de ser um Estado membro da União Europeia e da Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP), pode claramente estabelecer-se como um ponto de entrada, um canal de comunicação e uma ponte para as empresas chinesas que pretendam entrar nos mercados europeus, africanos e da América Latina. E neste ponto, Portugal desempenha um papel importante nestas três regiões. Repare, os países africanos de língua portuguesa têm vindo a reforçar as relações económicas com Portugal, nomeadamente no que se refere ao comércio de mercadorias e serviços. Em 2013, o comércio com estes países ascendeu a mais de 14,5 mil milhões de euros e registou uma taxa de crescimento médio anual desde 2009 superior a 16%. Entre 2009 e 2013, a média anual do investimento português em África situou-se em 8% e, desde 2009, o investimento total bruto elevou-se a quase 5 mil milhões de euros, evidenciando as fortes relações entre o nosso país e esse continente. Ao mesmo tempo, as fortes ligações históricas e culturais com a América Latina fazem de Portugal um natural ponto de entrada nestes mercados. O Brasil ocupa neste contexto um lugar de destaque, devido aos laços históricos e linguísticos que nos unem.

Como vê a evolução das exportações portuguesas nos últimos anos? Os empresários estão a diversificar mercados, a exportar para outras geografias?

Um sucesso. Estamos a exportar mais, e estamos a exportar melhor. Mas que fique claro que este sucesso se deve às empresas e empresários portugueses que, nalguns casos, se reiventaram e reposicionaram os seus produtos e serviços. O Portugal tradicional continua a existir, com a excelência do seu vinho, da cortiça, do azeite, mas convive com um Portugal moderno, global, com setores como o farmacêutico, o agroalimentar, as tecnologias de informação (TIC) , a nanotecnologia, os têxteis, energias renováveis etc, que concorrem com os melhores no mercado mundial. As próprias universidades portuguesas fazem parte do ranking das melhores do mundo. Voltando à sua questão: exportamos com mais valor acrescentado, diversificamos mercados, crescemos em números e em marcas. O Made in Portugal está “in”.

Pode dar exemplos?

Dou-lhe o exemplo de um setor tradicional que se reinventou, o calçado, e que hoje é altamente exportador pelo design, pela criatividade e qualidade. A sua exportação é enorme nos mercados fora da Europa, nos exigentes. Sapatos portugueses vêem-se em lojas pelo mundo fora, e nos pés de muita gente, incluindo princesas e gente do espetáculo. A internacionalização da economia portuguesa tem vindo a ser crescente, há um cada vez maior número de empresas internacionalizadas; mais de 40 mil (entre bens e serviços); as exportações, fruto do esforço e resiliência das empresas portuguesas, têm tido uma evolução extraordinária nos últimos anos, rondando já os 40% do produto interno bruto (PIB); empresas portuguesas em setores tão diversos e distintos assumem hoje um papel de destaque e, por vezes, até de liderança, a nível mundial; o made in Portugal é hoje um ativo reconhecido internacionalmente e acrescenta valor aos produtos e serviços; em suma, Portugal é hoje um país mais integrado na economia global. E esta integração é visível na diversificação dos mercados nossos clientes. O peso das exportações para fora da UE tem aumentado (em 2000, ao nível de exportações de mercadorias, ascendia a 19% – hoje ascende a 28%).
Qual a importância dessa diversificação?

Muito importante. É hoje claro que as economias ocidentais foram muito afetadas pela crise nos últimos quatro anos, nomeadamente, mercados mais maduros (mais a Europa que os EUA). A diversificação para os mercados emergentes permitiu às empresas portuguesas estarem em mercados de maior crescimento.

Que evolução espera das exportações portuguesas para os próximos anos? A economia tem capacidade para continuar a exportar mais?

Continuar a consolidar esta curva ascendente. Exportamos quase 42% do que produzimos, muito embora tenhamos muitas empresas que exportam 100%. É um trabalho de todos, gradual e que naturalmente faz parte da estratégia do Governo que assegura condições para continuarmos este crescimento. A internacionalização do tecido empresarial nacional está longe, muito longe mesmo, do seu termo, muito ainda pode e deve ser feito. O país e os empresários nacionais necessitam de apostar cada vez mais nos mercados externos, de continuar a investir na inovação (de produto, de sistemas e de processos), nas competências, de molde a consolidar nos países onde já se está presente, e a aproveitar oportunidades em novos mercados. Temos que continuar a aproximar-nos dos valores de outras pequenas economias abertas da UE-28, como a Áustria, a Bélgica, a Bulgária, a Dinamarca, a Eslováquia, a Holanda, a Hungria, a Irlanda ou a República Checa.

Por Carlos Caldeira

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