A (ir)racionalidade do crescimento

Nunca na história houve um estado de mercado em que tão poucas empresas valessem tanto capital face ao que a sua própria economia produz.

A recente valorização de um bilião de dólares atingido pela Apple é uma boa altura, como outra qualquer, para nos questionarmos acerca da sustentabilidade do atual crescimento das bolsas. Esta questão, que não remete para a viabilidade específica desta empresa como investimento, é de foro mais profundo, remetendo antes para todo um conjunto de empresas com crescimentos idênticos ao da Apple, que já soma 23% desde o início de 2018 à data deste artigo.

Até que ponto podem os índices bolsistas crescer continuamente 15%, como o S&P500 no último ano, ou 24% como a Nasdaq no mesmo horizonte temporal? Quando é que o crescimento deixa de ser sustentado, mesmo numa economia que prospera?

Talvez valha a pena desviar o olhar da empresa mais valiosa dos Estados Unidos e pôr em perspetiva a valorização atual de todas as empresas transacionadas em bolsa no país. Olhemos para um simples rácio entre o valor de mercado de todas as empresas em bolsa sediadas nos EUA face ao PIB do país; rácio esse que se encontra no patamar dos 159%. Mas que significa isto? Há valores padrão para este rácio se situar entre os 70% e os 90%, mas digamos que em 2000, no pico da bolha tecnológica, se situou nos 145%, valor historicamente mais elevado… Até agora. Em 2008 bateu nos 111%.

Com uma nova perspetiva do estado atual dos mercados, devemos diagnosticar então as razões macroeconómicas para tal: redução da tributação sobre empresas, baixas taxas de juros, expansão do consumo, entre outros fatores que fomentam a atratividade por este investimento. Mas estará o mercado a crescer de forma racional e fundamental? Como é que menos de 4 mil empresas poderão sustentar uma avaliação conjunta superior a 150% da produção interna da maior potência económica do mundo?

Observar a evolução do papel dos famosos fundos passivos, ou ETFs, pode ser um exercício interessante. O papel de um ETF é o de angariar dinheiro a nível global e, com ele, comprar progressivamente ações de forma a que o portefólio do fundo cresça ao mesmo ritmo que a própria bolsa. Assim, um ETF que replique o S&P500 apenas adquire o montante adequado de ações de cada empresa cotada nesta bolsa, de forma a imitar o melhor possível as oscilações da respetiva praça de ações.

Eis um exemplo de como isto pode afetar a avaliação de uma empresa: a entrada do Twitter no S&P500 em junho que, quase isoladamente, fez a empresa valorizar mais de 30% em menos de duas semanas, valorização esta que foi influenciada pelo número de ações compradas obrigatoriamente por fundos passivos. Então, qual é a racionalidade inerente a comprar um pouco de tudo? Quando é que o mercado em máximos históricos deixa de ser uma oportunidade e passa a ser caro?

A análise à sustentabilidade do crescimento atual a médio prazo das praças norte-americanas requer um estudo abrangente com a análise histórica de outras micro e macro variáveis, mas, para já, podemos concluir que nunca na história houve um estado de mercado em que tão poucas empresas valessem tanto capital face ao que a sua própria economia produz.

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