A justiça e as vaidosas promiscuidades

A justiça é um dos alicerces mais importantes de uma democracia e o tema do ano. E a justiça que não se faz respeitar não é respeitada.

A justiça é o tema da última crónica do ano e isto porque este é o grande problema do país. Merece reforma total que teima em não acontecer. Centremo-nos num caso mediático, o e-Toupeira, como poderia ser um outro qualquer, para começar por dizer que a vã glória de cada um só tem o limite da visão que o próprio tem do seu umbigo.

Li, com algum desagrado e tristeza, a notícia de que a juíza do processo teria decidido não acusar a SAD benfiquista e os seus responsáveis por umas dezenas de crimes dos quais vinham indiciados após laboriosa e, pensava eu, competente investigação do Ministério Público. Penitencio-me com o disclaimer de que nada me move contra a SAD do Benfica ou de outro qualquer clube. Sou jornalista, se sei um facto tenho de o confirmar, reconfirmar e escrever. Não sou juiz nem procurador, mas gostava de ter orgulho na justiça do meu país. É um dos alicerces mais importantes de uma democracia e tema do ano. Ora a justiça que não se faz respeitar não é respeitada. Justiça que quer viver de parangonas, que permite que meios de comunicação social tenham acesso a tudo e em qualquer momento não merece o nome que usa. Embora, claro, nós jornalistas gostemos de matérias “quentes” de interesse público.

Não preciso de entrar na análise objetiva dos factos aberrantes com uma justiça que aplica 17 anos a um crime económico e logo dá dois anos de pena suspensa a um crime de violência doméstica, pedofilia ou violação de menor não tem como defender-se.

Até aqui podia, contudo, pensar-se que estávamos a falar de destempero, falta de senso, demasiada latitude na interpretação e aplicação da lei ou, como os próprios dizem, da irresponsabilidade dos juízes. Mas não. Estamos a falar – também – de vaidade. E ela atinge o seu auge nas promíscuas ligações aos media numa tentativa de, à maneira de Charles Bronson, cada justiceiro se vingar de não ter sido escolhido para o lugar a, b ou c, de não gostar do carro ou do fato de um cidadão que se limita a ganhar mais que o investigador ou o juiz, enfim… .

Sempre que um processo é dirigido a alguém mediático os media são os primeiros a saber. Deve criticar-se os jornalistas? Não, de forma alguma. O seu papel é dar notícias. Se lhas entregam de mão beijada, porque não oferecê-las aos leitores. É melhor fazê-lo assim do que inventar que se investiga e depois vir a descobrir-se que a investigação tem por base uma denúncia por vingança ou, tão simplesmente, inveja. Casos como o da SAD do Benfica, do Ronaldo, do juiz Rangel e da ex-mulher, de alguns políticos condenados na praça pública, de outros absolvidos porque as acusações são mal construídas, não deveriam existir. Desonram os bons profissionais de justiça que temos e minam a confiança dos cidadãos. Já agora fica uma advertência: Não há jornalistas amigos. Pelo menos os que são sérios. E também não há funcionários sérios do sistema judicial que passem informações sigilosas aos media.

E a rematar temos de dizer que 2019 será um ano de turbulência, volatilidade e incerteza. Isto a acreditar nos analistas económicos. Boas entradas para todos.

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