A juventude, a energia nuclear e as tecnologias

A UE que avançou com a energia nuclear e o gás como energias de transição no combate à crise climática tem vergonha de nos seus documentos escrever a palavra “nuclear”. A Alemanha condiciona.

1. Em 2020/1, a energia nuclear de baixo carbono gerava 10% da electricidade, a nível mundial, um pouco mais do que a eólica e a solar em conjunto.

Em Setembro de 2022, a Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA), um organismo da ONU, admitia que o mundo até 2050 pode duplicar a produção de energia de origem nuclear, afirmando que esta energia se encontra em fase de expansão, “roubando” espaço às de origem fóssil. Deste modo, o seu contributo no combate à crise climática apresenta-se tendencialmente bem positivo, porque com o aumento da sua produção reduz-se a emissão de gases com efeito de estufa (GEE) na atmosfera.

Na União Europeia, porém, a realidade não é esta. A energia nuclear está em perda por razões várias, com as fósseis a ganharem terreno e a emitirem cada vez mais dióxido de carbono (CO2). Tem sido/é a falta de uma política comum (o que é muito grave) a contribuir para esta degradação do meio ambiente.

É o que se passa na Alemanha que accionou centrais a carvão tendo, no entanto, adiado a desactivação das três centrais nucleares até Abril de 2023, para melhor enfrentar o frio, de Novembro a Abril, período tido como o mais difícil.

Interessante registar, neste contexto, a posição de Greta Thunberg que, numa declaração à televisão alemã (12 Outubro 2022), disse achar preferível continuar a utilizar “as centrais nucleares actualmente em actividade”, em vez de as fechar e voltar ao carvão, entrando, deste modo, em choque com a posição dos verdes alemães que até fazem parte do governo de Scholz e insistem no fecho das nucleares até finais do ano, como estava previsto.

A primeira conferência internacional de jovens defensores da nuclear

2. Um pequeno grupo de jovens, convictos de que a energia nuclear constituía um grande activo para o futuro da Humanidade, avança para a organização da primeira conferência internacional de jovens nucleares, conseguindo concretizá-la no ano de 2000, na cidade de Bratislava.

Esse sonho que levou três anos de porfiados esforços beneficiou de alguns apoios internacionais como a AIEA e entidades privadas. E, assim, de um pequeno grupo de jovens existe hoje (2022) uma alargada rede de comunidades, sob a sigla de IYNC (Congresso Nuclear Internacional da Juventude), que já se estende por 46 países, agregando mais de uma centena de milhar de jovens nucleares.

A missão da comunidade de jovens nucleares (IYNC), no essencial, converge para a partilha entre gerações, de conhecimentos, práticas e capacidades técnicas cada vez mais avançadas à escala internacional. Por exemplo, divulga os benefícios da ciência e da tecnologia nucleares e funciona de plataforma de networking e desenvolvimento de novos projectos. Na sua grande maioria, são jovens bem preparados, de elevada qualificação escolar (mestres, doutores) em áreas científicas.

A IYNC reúne em Congresso de dois em dois anos. É uma oportunidade única pois nele se partilham as práticas registadas à escala global entre os jovens e as gerações mais experimentadas.

Esta vasta teia comunitária tem uma dinâmica própria.

  • Desenvolve actividades muito variadas e estudos ou por sua iniciativa ou em parceria com outras instituições jovens e também com parceiros antigos como a AIEA, que os apoiou desde início, a Associação Mundial de Operadores Nucleares e muitos outros.
  • Troca essas experiências e divulga os resultados.
  • Promove a competição da inovação com outras organizações.
  • Realiza visitas técnicas, conferências temáticas, formação técnica, sobretudo entre os associados.

A actividade desenvolvida está orientada, fundamentalmente, para a aquisição e o enriquecimento do conhecimento cada vez mais elevado dos associados nas temáticas relacionadas com a energia nuclear e congéneres. Tudo se processa de uma forma participativa.

A IYNC, uma organização em rede à escala internacional, não deixa de ter redes à escala de cada Continente e, assim, temos a rede norte-americana, a rede africana, a rede europeia, etc. com as respectivas siglas, bem como a nível de países.

Embora umas mais dinâmicas que outras, têm muitas metodologias e práticas em comum, o que facilita a troca e a partilha dos saberes adquiridos. Estamos, assim, perante uma rede “pró-ciência” como fundamentação das posições que a IYNC assume em relação à energia.

A confiança na tecnologia

3. A confiança na tecnologia é um eixo central da sua acção.

Mas há outras organizações viradas para as alterações climáticas e questões ambientais onde a confiança na tecnologia é também a chave e que encaram a energia nuclear como “uma das melhores formas de produção de energia”O jornal “Público” do dia 17 de Outubro de 2022 [AZUL] trouxe uma reportagem alargada sobre a RePlanet, uma organização ambientalista que diz defender o ambiente de forma diferente.

A RePlanet existe em vários países da Europa e na Austrália e define-se como “pró-ciência e pró-humanidade”. De comum com a Comunidade dos Jovens Nucleares de que falámos antes, tem a Ciência e a Tecnologia como padrão da tomada de decisões.

Mas, num aspecto pelo menos, é mais assertiva porque na nuclear aposta nos reactores modulares pequenos (SMR), ainda desenvolvidos em pequena escala. Apenas existem três unidades a nível mundial em funcionamento. Mas muitos países têm projectos para arrancar com os SMR que, à partida, têm uma produção mais fácil, mais barata e com tempo de fabrico muito menor.

O artigo informa ainda que a RePlanet acabou de entrar no nosso país, no início do mês de Outubro.

Interessante assinalar que a juventude parece ter uma representação significativa na RePlanet Portugal, pois os elementos fundadores são jovens e de formação altamente qualificada e afirma não querer entrar em guerras com ninguém, apenas trazer aconselhamento científico que tem faltado em muitos dos movimentos ambientalistas tradicionais.

A RePlanet defende que a União Europeia devia tornar-se tecnologicamente neutra, ou seja, deveria colocar no mesmo patamar todas as opções tecnológicas de produção de energia com baixas taxas de emissão de carbono (nuclear, eólicas e fotovoltaicas). O seu âmbito de acção estende-se para além da energia, abarcando áreas como a agricultura, os organismos geneticamente modificados, etc.

Mudança Geracional?

4. Indícios positivos, mas ainda com bastantes entraves. A falta de política energética comum na União é uma condicionante enorme. A UE que avançou com a energia nuclear e o gás como energias de transição no combate à crise climática tem vergonha de nos seus documentos escrever a palavra “nuclear”. A Alemanha condiciona.

Esta dinâmica da juventude é um grande abanão e parece estar a fortificar-se. Acima falei de Greta Thunberg mas ainda não a incluo nestas dinâmicas. Por onde irá, não sei, mas quanto à activação das centrais a carvão optou bem, condenando.

Admito, pela dimensão que os diferentes movimentos jovens estão a atingir e pelo trabalho sério em curso, onde a Ciência e a Tecnologia têm um papel determinante, que esta Juventude organizada venha a ter um lugar preponderante numa nova ordem energética de que a humanidade bem precisa e a UE deixe de estar envergonhada e assuma a nuclear em plano de igualdade com as renováveis.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

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