A literacia financeira portuguesa

Uma nova análise do Banco Central Europeu coloca Portugal, em 2020, no último lugar de uma lista relativa à Literacia Financeira, de 19 países europeus, incluindo antigas repúblicas soviéticas.

A literacia financeira, uma forma sofisticada de dizer se uma pessoa tem conhecimentos sobre a área financeira, seja calcular um juro simples ou um ROI (Return On Investment), ou até mesmo planear corretamente o budget mensal, é um dos pilares do crescimento económico, e num país como Portugal, que pouco cresce relativamente aos seus pares, é urgente preparar a população para gerir as suas finanças pessoais.

Desde mau planeamento financeiro a agregar dívidas com taxas de juro altas, ou simplesmente comprar produtos mais caros do que financeiramente são capazes, a baixa literacia financeira arruína, todos os anos, milhares de famílias.

Já em 2012, Behrman, um economista americano, analisou o conhecimento de 13.054 chilenos, num estudo que procurava comparar a riqueza e a literacia financeira. A descoberta mais importante é que as perguntas mais simples, têm um impacto muito maior na divergência da riqueza entre os participantes. Ou seja, não precisamos de um país de ‘Friedmans’ ou de ‘Keynes’, precisamos, sim, de um país que saiba o elementar.

Quanto maior for a desigualdade de conhecimentos financeiros entre a população portuguesa, maior será a divergência ao nível da riqueza entre aqueles que sabem e os que não sabem. Ora, a nova análise do Banco Central Europeu (BCE), que coloca Portugal, em 2020, no último lugar de uma lista relativa à Literacia Financeira de 19 países europeus, incluindo antigas repúblicas soviéticas, mostra o oposto da nossa população – i.e., os portugueses não sabem o básico.

Em métricas de crescimento, também é óbvio que não passamos do básico. Apesar do eventual trimestre em que a convergência portuguesa face à média da União Europeia vai existindo, no geral, temos falhado. Aliás, segundo o BCE, chegámos a estar 25 anos sem convergir, de meados de 1990 até 2019, e, nos últimos três anos, de 2020 a 2022, o crescimento real da nossa economia foi de apenas 2%, o terceiro valor mais baixo da zona euro.

Isto poderia ser expectável se estivéssemos no topo, mas estando na cauda da Europa, é chocante. Aos poucos e poucos, cada vez vamos ficando mais para trás, e os que no passado cobiçavam a nossa qualidade de vida, no futuro serão destinos de migração de portugueses que procuram uma vida melhor.

Remetendo novamente à análise do BCE, vemos que as antigas repúblicas soviéticas, como a Estónia e a Letónia, que em 1995 tinham cerca de 1/5 do PIB per capita português, estão prestes a ultrapassar-nos economicamente, e, relativamente à Literacia Financeira, já nos ultrapassaram por muito, com a Estónia a registar praticamente o dobro do resultado português.

Para quando uma disciplina de Finanças nas nossas escolas? Ou talvez possamos seguir o exemplo da Estónia que, a partir do ensino básico, aplica exercícios financeiros na disciplina de Matemática, expondo assim todos os alunos a este tema. É preciso e urgente acabar com o tabu de que Economia é uma área do secundário para “os preguiçosos que não querem ter Física e Química A”. Caso contrário, um dia, o tabu será falar da nossa economia quando o tema de conversa for uma economia sustentável e competitiva.

O artigo exposto resulta da parceria entre o Jornal Económico e o ITIC, o grupo de estudantes que integra o Departamento de Research do Iscte Trading & Investment Club.

Recomendadas

‘Off-site’

Em Portugal, arquitetos e indústria da construção têm-se mostrado relutantes em discutir pré-fabricação e sistemas modulares customizados. Importa refletir sobre o seu potencial de futuro.

O circo do novo aeroporto, o domador e o leão

O domador achava que era leão e o engolidor de fogo vestia-se de trapezista – determinado a não adiar a concretização de uma solução fundamental para o país e o trapezista de Belém vestia-se de engolidor de fogo.

Lisboa regrediu quase cem anos

Nos últimos 40 anos, Lisboa perdeu 260 mil habitantes, devido a más políticas públicas, a inércia administrativa e a transformações económicas, algumas das quais inevitáveis.
Comentários