A magia das compras vai chegar ao fim, mas Draghi deverá manter cartas na manga

O presidente do Banco Central Europeu deverá confirmar que o programa de compra de ativos vai terminar no final do ano. No entanto, há pouca esperança que Draghi forneça pistas sobre os próximos passos na normalização gradual da política monetária.

Kai Pfaffenbach/Reuters

Durante os mais de oito de anos que leva à frente do Banco Central Europeu (BCE), Mario Draghi foi apelidado de ‘mágico’ em centenas de artigos de notícias e opinião, principalmente por ter tirado da cartola a indicação que a instituição iria fazer tudo para salvar a moeda única e, depois, ter lançado o programa de compra de ativos da zona euro.

Esta quinta-feira, após a reunião de política monetária do Conselho de Governadores, o italiano deverá confirmar que esse último truque, que a partir de março de 2015 ajudou a bloco a superar a crise das dívidas soberana e acalmar os mercados, vai mesmo acabar no final deste mês. O fim desse programa, no qual o BCE já investiu 2,158 biliões de euros (incluindo 36.514 milhões de euros de dívida portuguesa), não representa, no entanto, o adeus à política monetária acomodatícia, dizem os analistas, até porque a zona euro enfrenta ainda várias incertezas, nomeadamente sobre o crescimento económico e a rota da inflação.

“Há poucas dúvidas de que o BCE vai anunciar a conclusão de seu programa de compra de ativos na reunião de 13 de dezembro, mas os dados anunciados recentemente tornam incómodo o timing da mesma”, explicou Franck Dixmier, global head of fixed income da Allianz Global Investors.

A taxa de crescimento na zona euro abrandou , atingindo apenas 0,2% no terceiro trimestre, o pior desempenho em 4 anos, enquanto a inflação ficou igualmente mais fraca: a inflação global foi de 2% em novembro, contra 2,2% em Outubro, e a inflação-base foi de 1% contra 1,1%.

Segundo Christoph Weil, economista sénior do Commerzbank, os dados confirmam que as estimativas do BCE para a inflação-base “estão, mais uma vez demasiado elevadas. O economista do banco alemão avança mesmo que o BCE “deverá, nesta reunião ter de rever em baixa em baixa as projeções para a inflação-base, que são atualmente de 1,1% para 2018 e de 1,5% para o próximo ano”.

Weil adiantou, contudo, que dado o ligeiro aumento recente nos salários, o BCE deverá permanecer confiante que a inflação-base irá acelerar em breve, uma tendência que poderá ser suportada pelo aumento dos preços da energia e das importações derivado da fraqueza do euro.

Franck Dixmier, da Allianz GI, sublinhou que apesar dos números decepcionantes, que o BCE deverá prosseguir o caminho de redução final no programa de compra de títulos, tal como Draghi, sugeriu isso mesmo em declarações recentes no Parlamento Europeu,

“O banco central deve ver a recente desaceleração dos dados como o resultado de obstáculos temporários, ao invés de uma mudança permanente e, além disso, por comparação, o pico de crescimento da zona euro em 2017 faz os dados mais recentes parecerem ainda piores”, explicou.

“Mesmo que não esperemos um anúncio-surpresa a 13 de dezembro, vai ainda ser interessante tomar nota das previsões económicas atualizadas do BCE – que, pela primeira vez, incorporam 2021. Estimamos que a taxa de crescimento projetada do banco central seja revista em baixa apenas ligeiramente, apesar da recente queda nos preços do petróleo, já que o petróleo mais barato deve re-injetar poder de compra e, consequentemente, impulsionar a inflação-base”, frisou.

Incerteza sobre ferramentas

A tese da Allianz GI, que é praticamente consensual entre os analistas, é a de que o BCE irá manter o rumo da normalização gradual da política monetária, pois os desvios das projeções não são significativos. No entanto, há várias incertezas sobre como o banco central irá implementar a políticas nesse rumo.

A primeira incógnita é sobre como o BCE planeia conduzir a política de reinvestimento. Desde junho, quando anunciou o fim do programa de compra, Draghi tem dito somente que o banco continuar a reinvestir na dívida que chega à maturidade “por um período prolongado”, sem especificar o horizonte, nem a duração dos novos títulos a comprar ou a distribuição entre dívida pública e privada, sublinhou Dixmier.

Em segundo lugar, permanece a dúvida sobre o timing da subida das taxas de juro. Nesse campo também, o italiano tem sido vago, dizendo que deverá acontecer apenas após o verão de 2019.

A terceira incerteza centra-se na do BCE capacidade de oferecer novos empréstimos de longo-prazo os bancos. Segundo Dixmier, o banco central poderia usar esta ferramenta caso um aperto de liquidez atingisse os mercados, particularmente considerando que muitos bancos dever pagar os atuais empréstimos baratos conhecidos como operações de refinanciamento de longo-prazo direcionadas (TLTROs).

“Não esperamos que o BCE forneça muitos detalhes, se alguns, sobre esses três pontos na sua próxima reunião. Isto para garantir que mantém a capacidade de reagir a mudanças na economia”, salientou.

“Contudo, a continuação da política acomodatícia do BCE vai ser, provavelmente, uma boa notícia para os investidores, alguns dos quais temem um aperto monetário prematuro. A próxima reunião não deve igualmente alterar a perspetiva dos mercados de títulos da Zona Euro, atualmente mais influenciados pela forte aversão ao risco do que pelos fundamentais,” concluiu Dixmier.

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