A normalização dos extremos na política partidária

Já muito se disse sobre a vitória do partido Irmãos de Itália, liderado por Giorgia Meloni, nas recentes eleições legislativas. Gostaria de abordar o tema introduzindo um pouco de perspetiva histórica.

Já muito se disse sobre a vitória do partido Irmãos de Itália, liderado por Giorgia Meloni, nas recentes eleições legislativas. Gostaria de abordar o tema introduzindo um pouco de perspetiva histórica.

Há cerca de um século, o parlamentarismo britânico, dominado por um rotativismo entre liberais e conservadores, algo comum na Europa de final de século XIX e alvores do século XX, era ameaçado, a fazer fé nos editoriais do circunspecto jornal “Times”, pela ascensão dos radicais. Os radicais eram, note-se, o Partido Trabalhista. Na altura, páginas e páginas foram dedicadas à análise do fenómeno e os peritos tiveram a palavra sobre a melhor forma de conjurar o perigo radical.

O tom dominante era o de que ignorar, fingir que os trabalhistas não existiam, que não correspondiam a mais que um punhado de demagogos manipulando uma massa de operariado para quem o elevador social não tinha funcionado.

Era preciso afinar o tom e a argumentação da diabolização dos trabalhistas, missão para a qual toda a imprensa respeitável foi chamada.

Escusado será lembrar que a ascensão dos trabalhistas ao círculo do poder é um dos desenvolvimentos mais importantes no modelo de capitalismo social, dominante nas últimas sete décadas na Europa Ocidental. A aproximação aos círculos de poder, o romper do cordão sanitário que liberais e conservadores os tinham tentado limitar, fez de trabalhistas, socialistas franceses ou SPD, forças nos antípodas da filosofia e dos programas políticos que lhe estiveram na génese.

A ascensão e normalização de forças radicais fez parte do jogo democrático em todo o lado.

Para os mais distraídos, relembro que o programa do PPD de Francisco Sá Carneiro, Pinto Balsemão e Magalhães Mota defendia nacionalizações e um papel relevante para o MFA.

Mais recentemente, em Portugal, tivemos o exemplo de como a aproximação ao poder normaliza ambições, modera discursos e práticas políticas. Veja-se o caso do primeiro governo, de António Costa, a famosa geringonça. O apoio de forças ditas extremistas (BE e PCP) não se traduziu no abandono da linha financeira (implementada pelo governo de Pedro Passos Coelho), nem na saída da NATO, ou no retomar do Escudo. Nem mesmo no incumprimento no pagamento da dívida externa, não podendo, por isso, testar-se a teoria de Pedro Nuno Santos de que os credores ficariam a tremer de medo com a mera ameaça de incumprimento.

Também não consta que o governo dos Açores tenha sido capturado pelos extremistas do Chega e IL e que se produzam nos aeroportos açorianos as cenas de fuga massiva que assistimos nas fronteiras russas em direção à Finlândia e à Geórgia.

Giorgia Meloni defende a democracia, apoia a Ucrânia, condena Mussolini por ter suprimido a democracia e ter arrastado a Itália para uma guerra. Os Irmãos de Itália tiveram mais votos que os seus parceiros de geringonça italiana, onde figura um idiota nostálgico do fascismo e outro que é um expoente de corrupção.

Para o bem da Europa, desejo que a entrada no círculo de poder democrático modere pulsões, apague radicalismos e que uma agenda moderada se imponha.

Se há 70 anos a proteção social e a revitalização da economia foram centrais no rotativismo moderado italiano, agora chegou a vez, na hierarquia das preocupações dos italianos, de se introduzir algum controlo sobre fluxos imigratórios e de se proceder à integração de quem chega à Europa.

Nada disto, porém, parece abalar o consenso italiano: economia de mercado, estado social, União Europeia, NATO e o Papa!

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