A polarização provocada por Costa vs Costa

Se o ex-primeiro-ministro era um “animal feroz”, o que dizer de António Costa e do seu comportamento perante o ex-governador do Banco de Portugal?

1. António Costa, o primeiro-ministro, está claramente a perder o pé ao entrar em diálogo com o antigo governador do Banco de Portugal (BdP), Carlos Costa, porque quer no livro do jornalista Luís Rosa, quer posteriormente na divulgação da obra e do SMS privado, demonstrou a intenção em manter Isabel dos Santos à frente dos destinos do antigo BIC (atual EuroBic).

As declarações posteriores do primeiro-ministro vieram revelar muito nervosismo e algo que não víamos há muito na política portuguesa: parece que voltou o valer tudo dos tempos de Sócrates. Claro que se pode sempre assacar responsabilidades aos políticos que consideraram o investimento angolano, ou de entidades angolanas, crítico para a estabilidade económica de Portugal e que de um dia para o outro o tornaram investimento “incómodo”. Isto só pode significar que os políticos não sabem o que fazem ou têm um apetite voraz pelos caminhos tortuosos.

Mas voltando ao tema da semana, fica a pergunta: se o ex-primeiro-ministro Sócrates era um “animal feroz”, o que dizer de António Costa e do seu comportamento perante o ex-governador do BdP, Carlos Costa? Recorde-se que o primeiro-ministro já teve episódios estranhos, como aquele vídeo onde fala sobre os médicos ou o caso do velhinho em plena campanha eleitoral.

De todo o modo, o Presidente da República (PR), mais uma vez, saiu em defesa do primeiro-ministro, o que traz uma polarização à sociedade portuguesa. De um lado António Costa e Marcelo Rebelo de Sousa, do outro Carlos Costa com todos os senadores da República a seu lado na apresentação do livro.

Falamos do general Ramalho Eanes, Marques Mendes (que apresentou a obra), do ex-ministro Fernando Teixeira dos Santos, de Aníbal Cavaco Silva, do ex-primeiro-ministro Pedro Passos Coelho e de outras figuras como Miguel Cadilhe, António Barreto, Paula Teixeira da Cruz, Pires de Lima, Joana Marques Vidal e Maria José Morgado.

Não foi por acaso que estes antigos responsáveis políticos, judiciais e meras figuras da sociedade estiveram presentes e quiseram demonstrar a Costa e Marcelo de que lado estão, numa contenda pública e também judiciária, daqui a uns meses, num episódio que revela o pior dos tempos que correm. Uma maioria que tudo pode, envolvida em vários casos, e despótica quanto baste. Será que vai chegar ao fim da legislatura?

2. O tema da inflação está longe de esgotado. E se todos esperam um 2023 bem pior do que 2022, a nível económico e social, é bem possível que tenham razão. Os números mais recentes da inflação na Europa indicam valores de dois dígitos e, mais grave do que este número é o valor da inflação subjacente, que exclui alimentos não processados e energia, que se situa nos 6% em termos de média europeia e que em Portugal já subiu para 7,9%. Ou seja, são os bens e serviços centrais a contribuir para a erosão do valor do dinheiro. Em suma, os preços mais elevados vieram para ficar.

3. A novela Cristiano Ronaldo continua. O atleta irá certamente mudar de clube e defende-se perante aquilo que considera ser uma falta de respeito pelo melhor do mundo. Entre nós contamos que continue a dar o melhor que tem e a comportar-se como o melhor embaixador que o país jamais teve. É um ídolo e, para nós portugueses, tem sido a afirmação do país. E mesmo que contribua menos em termos atléticos do que há 20 anos, ninguém lhe pode tirar aquilo que fez por todos. É o maior entre os maiores de todos nós.

Recomendadas

Proibido poupar

Uma sociedade que oprima a poupança e reduza o indivíduo a uma máquina de consumo será, indubitavelmente, opressora.

A crise da habitação e o papel do Estado

A banca e o supervisor podiam ter evitado a excessiva utilização de créditos à habitação com taxa variável.

As modulações da paz na Ucrânia

Mais recentemente, temos assistido a intervenções de várias entidades apelando à obtenção de uma solução política para o conflito, todas admitindo a possibilidade da amputação territorial da Ucrânia.
Comentários