A prevalência do desinvestimento negocial

Em 7 meses de exposição ao karma da escalada bélica

Todos os dias os noticiários e debates servem-nos atualidade na mesma pauta, falam-nos de: estratégias, táticas e operações militares;  violações de direitos de soberania e humanitários; migrações maciças das populações; baixas bilaterais; atrocidades e crimes de guerra; reforço armamentista e de contingentes militares; solidariedade das nações; apoios em milhares de milhões de dólares e de euros; fluxos sempre em crescendo de sanções económicas e financeiras; e, na espuma dos dias, das reconquistas de território, da mobilização de reservistas e dos ardilosos referendos independentistas. Fóruns ‘bola de cristal’ alimentam o espetro da ameaça nuclear. Paira sobre os europeus a apreensão crescente de gélido inverno e da estagflação das economias, e as moedas enfraquecem e a inflação já a pagamos e ganha raiz.

Nos comentários ouvimos a miúde que as guerras são táticas que servem o exercício da diplomacia que trilhará a senda das negociações. Porém, sobre pensamento negocial muitíssimo pouco se concretizou e sete meses de desgraça são corridos. Prevalece e ganha corpo a escalada bélica que se

perspetiva uma via de cauda longa de infortúnios planetários. Enfraquecer a Federação Russa é um trilho de desenlace incerto e pode dar lugar a males deriváveis da fragmentação e emergência de diversos, e quiçá mais maquiavélicos, ‘Putins’. Ao persistir em tentar ‘secar’ a capacidade da Federação Russa acicatamos e enclausuramo-nos em lógicas de domínio-submissão. Desta escalada bélica todos sairemos a perder, uns mais e mais imediatamente que outros, mas todos com auguro de horizontes sombrios.

Interpela-nos a desafiante necessidade de produzir pensamento negocial para sair do atoleiro em que afundamos. Todas as negociações são táticas considerando interesses que se admitem viabilizar, e certo é que para se atingir ou aproximar de um fim pode não existir um caminho único. Tendo isto presente, o que se presume que as partes beligerantes querem transacionar não deve ser o ponto de partida pois pode limitar a prospeção dos possíveis. Aprofundar pensamento sobre abordagens negociais requer desnatar quais são os interesses prioritários a atingir na sequência das negociações. Para a Federação Russa parecem-me ser interesses: geoestratégicos securitários de controlo de fronteira e económicos e militares de acesso ao mar; culturais históricos e identitários; e de proteção da população russófila em território ucraniano. Para a Ucrânia os interesses parecem-me ser: a integridade territorial; a segurança dos cidadãos; a reconstrução nacional; e a restauração da economia. Que sejam mais, ou outros, os interesses, tê-los-emos de identificar.

Pensamento criativo precisa-se para explorar a integração de interesses e para tanto muitas áreas do conhecimento concorrem, tendo as universidades e politécnicos contributos a capitalizar. Neste conflito a história do já aconteceu e do acontece convoca-nos hoje à urgente participação no brainstorming sobre a ‘história do por fazer’.

 

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