A rentabilidade nos 10,8% supera pela primeira vez o custo do capital, diz CEO da CGD

“A Caixa ainda não conseguiu ter um saldo positivo entre prejuízos e lucros nos últimos 10 anos”, disse Paulo Macedo que espera “zerar” no fim deste ano. No que toca às unidades de participação em fundos de reestruturação, estas totalizam 440 milhões de euros nas contas de setembro, porque ainda não foi feito o closing da venda à DK Partners.

A rentabilidade dos capitais próprios (ROE) alcançou 10,8% e superou pela primeira vez o custo do capital, frisou o presidente executivo da Caixa Geral de Depósitos. Paulo Macedo explicou que o custo do capital dos bancos que o mercado assume é de 10%. O CEO lembrou que a CGD fez uma emissão de dívida de elevada subordinação (Additional Tier 1 Capital) a 10,75%.

Já em outubro a Caixa emitiu nos mercados internacionais, para cumprimento do MREL, dívida sénior preferencial no montante de 500 milhões de euros (dívida verde) a uma taxa de 5,75%. Esse é precisamente o montante de uma emissão de dívida Tier 2, emitida há quatro anos, também a 5,75% e que se não for reembolsada antecipadamente em junho de 2023, passa automaticamente para um juro de 8,5%.

“A Caixa ainda não conseguiu ter um saldo positivo entre prejuízos e lucros nos últimos 10 anos”, disse Paulo Macedo, que espera “zerar” no fim deste ano.

Os custos de estrutura da Caixa nos nove meses subiram 38,8% para 726,18 milhões de euros, mas aqui há efeitos extraordinários e, por isso, em termos custos de estrutura correntes, o banco regista 649 milhões de euros, o que traduz uma subida de 5% face a setembro de 2021. Se olharmos só para a atividade da CGD em Portugal, os custos de estrutura correntes caíram 1% para 437 milhões.

O banco lembra que houve um aumento de 24% dos custos regulamentares para 80,3 milhões de euros. Isto divide-se entre 37,1 milhões de contribuições extraordinárias sobre o setor (inclui 5,7 milhões de adicional de solidariedade) e 43,2 milhões de custos de regulação. Ou seja, é um aumento de 15,7 milhões de euros face ao período homólogo de 2021. Aqui está englobado 24,7 milhões que a CGD contribuiu este ano para o Fundo de Resolução europeu; 13 milhões de contribuição para o Fundo de Resolução nacional e a contribuição da banca criada como extraordinária há duas décadas de 5,6 milhões.

Em termos de qualidade da carteira de crédito, a CGD reportou um rácio de NPE (non-performing exposure) de 2,1% (2,6% em NPL, non performing loans), a cobertura por imparidades específicas é de 59,4% (64% dos NPL).

Este rácio de crédito malparado promete degradar-se em 2023 com a crise da subida dos juros do crédito à habitação. O Governo vai publicar um diploma que obriga os bancos a negociarem com os clientes a partir de uma determinada subida da taxa de esforço (DSTI), mas isso não impede que os clientes alvo de reestruturação passem a ser classificados como Stage 2 (crédito em risco). Paulo Macedo confirmou uma notícia avançada pelo Jornal Económico, que os clientes vão ficar marcados por causa das regras europeias determinadas pela EBA (Autoridade Bancária Europeia).

O custo do risco de crédito foi negativo -0,25% refletindo evolução favorável da recuperação e do graus de cobertura por imparidades. Isto significa que a libertação de imparidades superou a constituição de novas imparidades.

O banco liderado por Paulo Macedo reportou ainda um  Texas Ratio (que dá a relação entre o crédito vencido e a cobertura por imparidades e capital tangível) de 20,5%, abaixo do registado em setembro de 2021, quando era de 21,5%. O rácio de capital do banco CET1 está em 18,7%.

Paulo Macedo revelou ainda que os imóveis detidos para venda totalizam 335 milhões de euro, o que traduz uma redução de 17% face ao final de 2021. As propriedades de investimento somam 19 milhões de euros em valor dos imóveis.

No que toca às unidades de participação em fundos de reestruturação, estas totalizam 440 milhões de euros, porque os ativos imobiliários de turismo ainda estão nos fundos da ECS uma vez que ainda não foi feito o closing da venda à DK Partners.

O Jornal Económico avançou que a operação de venda do designado projeto Crow está ainda dependente da luz verde dos reguladores e deverá ficar concluída no final do ano.

Em conferência de imprensa, a CGD apresentou resultados até setembro de 692 milhões, suportados em grande parte na redução de imparidades Covid.

Na conta de resultados há a destacar que a margem financeira regista uma evolução de 185 milhões de euros (+25%) com forte contributo da atividade internacional (+28%) e das operações de tesouraria (incluindo o programa TLTRO do BCE) e gestão da carteira que contribuíram com 60 milhões de euros.

“Em Portugal, os efeitos da subida das taxas de referência do BCE tem vindo a repercutir-se gradualmente na margem financeira do retalho (particulares e empresas), que aumenta nos primeiros 9 meses do ano cerca de 18 milhões de euros face a igual período 2021”, diz a instituição.

Confrontado com o facto de o banco estar a beneficiar ainda do programa de juros baixos do BCE (LTRO) – dinheiro esse que apesar de ter sido obtido a muito baixo custo, está agora a ser emprestado aos atuais juros altos -, o CEO lembrou que a CGD, no terceiro trimestre, ainda pagou juros pelos Bilhetes do Tesouro, pelas Obrigações do Tesouro, pelo Crédito à Habitação e ainda, em termos acumulados, pelo excedente dos depósitos no BCE (que têm um valor acumulado negativo).

O banco teve um resultado positivo com o programa do BCE de LTRO  (Operação de refinanciamento de prazo alargado direcionadas) de 27 milhões de euros, disse Paulo Macedo.

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