A Rússia sem fronteiras

As últimas movimentações da Rússia têm inspirado diversas notícias nos meios de comunicação social dos vários países da OTAN (organização Tratado Atlântico Norte). É normal que assim seja, dado o conflito que se vive na Ucrânia e o facto de a Rússia estar fora desta organização de defesa. No entanto, a questão que fica é […]

As últimas movimentações da Rússia têm inspirado diversas notícias nos meios de comunicação social dos vários países da OTAN (organização Tratado Atlântico Norte). É normal que assim seja, dado o conflito que se vive na Ucrânia e o facto de a Rússia estar fora desta organização de defesa. No entanto, a questão que fica é a seguinte: no meio de tanta circulação de informação, no âmbito do que chamamos comunicação internacional, a quem se dirige este discurso informativo?

Retrocedamos um pouco: cada ação da Rússia, relatada pelos meios de comunicação social dos vários países, tem um impacto informacional e comunicacional. Mas estará a Rússia a levar a cabo ações do Atlântico ao Pacífico para comunicá-las nos países que considera seus opositores? Ou também estará a passar uma mensagem para o seu próprio país?

Este é o desafio: perceber como funciona esta comunicação internacional que atualmente flui com tanta facilidade. Neste momento, podemos dizer que tanto a OTAN como a Rússia se estão a posicionar perante um xadrez difícil: a disputa da Ucrânia. Espaço geopolítico tradicionalmente na orla da Rússia, está agora numa posição de charneira entre União Europeia/OTAN e Rússia, sofrendo as respetivas consequências. Na realidade, não é expetável que a intensidade do conflito vá subir de forma incontrolada. Os constantes contactos diplomáticos e manobras de bastidores apontam nesse sentido. Contudo, também sabemos que a Rússia não se conformou com a sua perda de poder a nível mundial. A subida de popularidade do Presidente Putin tem sido proporcional à sua capacidade de afirmação internacional.

Nesse sentido, as operações da Rússia têm sido muito proveitosas. Está a comunicar a sua capacidade militar e de afirmação internacional nos planos nacional e internacional. Está a mostrar internamente que a Rússia ainda pode atuar em todos os quadros geopolíticos sensíveis no mundo e não apenas num quadro regional, recuperando o imaginário de potência mundial. Ao saber que todas as notícias estão a ser relatadas nos países da OTAN e as ações que lhe dão origem, a informação que a Rússia pretende passar sai reforçada. Assume o seu papel de potência mundial interna e externamente. Até porque sabe que o clima de ameaça, apresentado de forma pacífica (por exemplo, no Atlântico com um navio de exploração hidrográfica, portanto, um navio militar sem características ofensivas), é muito profícuo nas negociações que decorrem e irão decorrer.

A comunicação internacional é pois usada não só para efeitos externos como internos. É uma ferramenta conhecida por ambas partes e por ambas usada. Porque afinal, as fronteiras da comunicação desvaneceram-se. Habilmente, a Rússia usa-as para demonstrar que pode estar num contexto sem fronteiras. Por isso, mostra-se presente em todo o mundo.

Cátia Miriam Costa
Investigadora do Centro de Estudos Internacionais, ISCTE – IUL

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