A sustentabilidade ou a morte

Os problemas com o meio ambiente e com as desigualdades sociais não nos são externos, como se existissem num plano dos outros, que escolhemos ou não dar atenção.

A sustentabilidade é multidimensional, e envolve múltiplos desafios aos governos, empresas e cidadãos, numa altura a que assistimos ao COP27 e aos movimentos de jovens, enquanto a inflação, sobretudo nos preços da energia, e a guerra na Ucrânia ameaçam colocar retrocessos significativos aos avanços no sentido de implementar alterações nos sistemas económicos para os tornar menos impactantes no meio envolvente, mais justos socialmente e mais transparentes.

O consumo de recursos correntes, para ser sustentável, deve atender ao impacto nas gerações futuras ou, por definição, falhará na sua sobrevivência. Esta morte anunciada será tanto metafórica quanto real, com redução da biodiversidade, a baixa resiliência das economias e das empresas, e a extinção última do planeta.

O primeiro grande desafio que se coloca a todos é o de compreender que a sustentabilidade é inerente à sobrevivência dos indivíduos, governos e empresas. Os problemas com o meio ambiente e com as desigualdades sociais não nos são externos, como se existissem num plano dos outros, que escolhemos ou não dar atenção.

Para os governos, os desafios correspondem a repensar e criar as estruturas subjacentes para a mudança. O atual sistema económico recompensa frequentemente as práticas mais insustentáveis. Assim, prolonga a patologia do status quo, monopoliza os recursos, mantém a estrutura de poder e diminui a oportunidade de um novo sistema a ser projetado e construído que sirva as pessoas e o ambiente de forma sustentável. Exemplos disso são a subsidiação de práticas económicas insustentáveis, a industrialização na exploração dos recursos naturais e a consideração da natureza e perpetuação das desigualdades sociais como um subsistema económico, utilizados como mercado de fatores na criação de atividades comerciais. A legislação e regulação ambiental e de sustentabilidade tem apenas adiado a destruição, sem efetivamente proteger a natureza e as pessoas.

O desempenho da sustentabilidade está, também, a tornar-se um barómetro do desempenho global das empresas, onde já não é suficiente concentrar-se apenas nos retornos financeiros.  Não integrar a sustentabilidade na estratégia de uma empresa e nas operações diárias resultará na perda de capital, clientes e talento. Esta é uma oportunidade para as organizações, mas para ser bem sucedida tem de ser central tanto para os novos como para os modelos de negócio existentes. Simplesmente vê-lo como mais um custo a suportar ou a regulamentação a ser cumprida não trará os seus benefícios reais e transformadores.

Como a meta da sustentabilidade é tão complexa, as empresas precisam de um motor de transformação para alcançar o impacto desejado e sustentar os resultados. Este requer capacitação do líder, envolvimento das pessoas e certeza na execução, incluindo uma forte governação e supervisão apoiada por processos rigorosos e rastreamento, assentes numa comunicação clara e cultura empresarial forte.

Finalmente, para que as estratégias de sustentabilidade se concretizem, é vital definir uma mistura de metas de longo prazo e de curto prazo. Simplesmente dizer que se vai conseguir  emissões zero em 2050 não é suficiente, é necessário um plano que mapeie os passos de curto prazo que levarão a tal. É fundamental começar agora com uma estratégia concreta e planos detalhados e envolver a cadeia de valor mais ampla.

O tempo urge e os desafios são complexos. Na língua de Shakespeare, o momento é “do or die”.

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