“A Uber manipulou os condutores. Vendeu um sonho e mentiu”, diz denunciante

“A ‘big tech’ tem recursos ilimitados e gastam milhares de milhões para impedir legislação” a proteger condutores. “E a Uber gastou milhares de milhões”, disse hoje Mark MacGann, destacando que a Uber e outras empresas estão a tentar modificar a versão final da lei europeia sobre os trabalhadores das plataformas eletrónicas.

Harry Murphy / Web Summit

O denunciante responsável por divulgar informação sensível da Uber acusou a empresa de ter manipulado os seus condutores com o objetivo de entrar em vários mercados europeus, incluindo Portugal.

As ‘Uber files’ revelaram o acesso que os gestores da empresa de transportes tiveram junto de muitos governantes em todo o mundo, como o então vice-presidente dos EUA Joe Biden, o então ministro da Economia Emmanuel Macron, o então primeiro-ministro israelita Benjamin Netanyahu, o então primeiro-ministro irlandês Enda Kenny, entre outros.

“Estávamos a manipular os condutores. Vendemos um sonho e estávamos a mentir. Os condutores estavam a ser espancados e mortos”, disse hoje Mark MacGann, antigo lobista da Uber na Europa entre 2014 e 2016.

“Os taxistas tinham medo de perder o seu ganha-pão”. O denunciante estima que a empresa gastou nove milhões de euros em lobbying (tentativa de influenciar decisões/legislação) junto de governos europeus durante o período em que trabalhou na Uber.

“Nenhuma outra empresa conseguiu angariar tanto dinheiro em tão pouco tempo. E fizeram isto violando a lei para gerar caos e dominar o mercado. Todos [na empresa] sabiam que quebrávamos as  regras”, disse o irlandês na Web Summit esta quarta-feira, 2 de novembro.

O denunciante revelou que só anda de táxi hoje em dia, mas reconhece que o serviço de táxis está melhor atualmente devido à entrada de empresas como a Uber no mercado.

O gestor entregou ao “The Guardian” 19 gigabytes de emails, mensagens de texto e documentos que revelaram a extensão dos atos de lobbying da empresa para entrar e operar em vários mercados europeus.

Esta fuga de informação conhecida como ‘Uber files’ foi divulgada em julho deste ano pelo Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação (ICIJ, responsável pelos Luanda Leaks ou Pandora Papers) e vários meios de comunicação social em todo o mundo.

“Muitos diziam que a lei era errada, mas estávamos a violar a própria democracia”, afirmou, dando exemplos dos pensamentos dominantes dentro da empresa: “‘não aceitem um não como resposta’; ‘é melhor pedir desculpa do que pedir permissão’; ‘o mantra era ‘Uber on’ [jogo de palavras entre a palavra Uber e a expressão ‘bola para a frente’]”.

O gestor não sabe se a política dentro da empresa mudou nos últimos anos, mas que externamente continua a atuar: “a Uber está a injetar centenas de milhões de dólares para combater leis que dão a estes trabalhadores direitos sociais básicos. Estão a combater propostas nos EUA, a batalhar contra estes condutores”. Na Europa, a “diretiva europeia sobre os trabalhadores de plataforma” está a ser discutida para ser legislada.

“A Uber e outras plataformas estão a tentar que, na legislação [europeia] final, os condutores sejam considerados trabalhadores independentes. Não é segredo que a ‘big tech’ tem recursos ilimitados e que gasta milhares de milhões para impedir legislação. E a Uber gastou milhares de milhões”.

O denunciante revelou como eram tratados os profissionais que questionavam internamente os atos da Uber. “Se questionasses a empresa, eras tratado com suspeição. Tínhamos um belo código de conduta e não lhe ligávamos nenhuma. E diziam, ‘está ali a porta, podes fechá-la quando saíres”.

A questão da transparência e do lobbying também foi abordada. “A única coisa que a Comissão Europeia faz é aplicar multas. Quando ficas tão rico, ficas ingovernável e sem possibilidade de ser regulado”, afirmou o irlandês.

Na conferência de imprensa, o denunciante foi questionado sobre a atuação da empresa em Portugal, conforme foi revelado no ‘Uber files’. “As coisas não eram tão loucas em Portugal. Não tínhamos o mesmo acesso ao poder, não havia o mesmo nível de violência que noutros países do sul da Europa”.

Por ter divulgado informação sensível da empresa, Mark MacGann arrisca um processo judicial por parte da empresa. O gestor revelou que já foi informado que incorre num pagamento diário de 30 mil euros, o que até ao momento acumula um valor superior a 10 milhões de euros. Segundo o próprio, a empresa disse-lhe em off the record que não iria avançar com o processo, mas que não retirou esta espécie de aviso judicial formal.

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