A última geração que “ouviu os bits a passar na linha”

Ainda me lembro do meu primeiro computador, tal como a maior parte da minha geração, nasci em 1980 – era um Spectrum ZX 48K – provavelmente o modelo de computador pessoal mais vendido em Portugal nesses anos, com que o meu pai nos presenteou em meados dos anos 80.

Para dizer a verdade, até me lembro bem do momento em que vi um computador pela primeira vez, em casa de uma vizinha, onde um dos seus filhos tinha provavelmente um Atari ligado à TV a preto e branco… há certas imagens que ficam na retina de um jovem geek. Esta é certamente uma delas.

Quando fui à Bélgica, em 1986, entrei numa loja de informática e vi algo que me fascinou, um ecrã tátil com uma caneta que permitia fazer desenhos no ecrã, eu desenhei um barco, a minha tia uma lua, era uma espécie de iPad dos 80, nada portátil, mas igualmente fascinante para os meus olhos infantis e que só muito mais tarde, percebi que tinha visto aquilo que em português se chama uma caneta ótica ligada a um BBC Micro. De certa forma, esta tecnologia era acessível, não só para ser utilizada em casa, como, o facto de ser relativamente simples, obrigava o utilizador a ter de ler o manual para perceber como operar estas máquinas. Só com o aparecimento do Macintosh se começou a falar de interfaces intuitivos. Quem não se lembra de passar horas a programar em BASIC, ou simplesmente escrever “LOAD” para carregar um jogo de cassete na memória do computador, e ficar uns minutos a rezar que o jogo não encravasse enquanto ouvíamos os bits passar na fita.

Fomos a última geração a viver na intersecção de dois mundos, crescemos num ambiente analógico, mas que passou a adolescência a viver a digitalização, do telefone, da música, da televisão, e quem já nasceu a partir da década de 90 cresceu num mundo, onde internet, telemóveis, redes sociais, e outras tecnologias eram já corriqueiras, são os chamados nativos digitais.

Como dinamizador de vários programas de aceleração de startups e organizador de eventos de tecnologia tenho entrevistado dezenas de fundadores de empresas tecnológicas e startups e uma das minhas perguntas recorrentes tem a ver com a perda de virgindade digital, e quase todos indistintamente me dizem que a primeira experiência de programação foi com um ZX-Spectrum ou um Commodore Amiga.

Hoje sou pai e uma das preocupações que tenho é como se formata a cabeça de uma criança para as áreas cientificas e para as engenharias em particular? Em certa medida acho importante fazer esta espécie de arqueologia tecnológica, talvez porque olhar para o passado é conhecermo-nos e prepararmo-nos para o futuro. Tento motivar os meus filhos para a tecnologia, tenho um raspberry pi em casa, que não serve para outra coisa que não seja para o meu filho mais velho de 7 anos, me chamar o “homem dos anos 80”, mas, ao mesmo tempo, fica fascinado com os jogos daquela época, de certa forma os gráficos simples, as cores vivas e os sprites grandes que trazem à tona uma magia cromática que dificilmente se encontra nos jogos de hoje.

Não quero fazer deste artigo uma espécie de antes e depois… nem fazer a apologia do antigamente é que era. Mas, não deixo de recordar um dos primeiros contos de ficção cientifica de Asimov, “The Feeling of Power”, em que a humanidade vive numa sociedade computadorizada e se esquece dos fundamentos mais simples da matemática, e temo que a geração dos nativos digitais também esteja a perder os bits dentro das caixas digitais que os rodeiam. E será isso relevante? Hoje a tecnologia digital está cada vez mais encapsulada, protegida atrás de interfaces para não nos fazer pensar.

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