A Web Summit para além dos lugares-comuns

O caminho tem de passar por uma visão/solução integrada, que permita rentabilizar este esforço que o país e a cidade fazem para manter este evento por estas paragens.

Lisboa acolheu mais uma edição da Web Summit e, tal como sucede desde que se realizou a sua primeira edição, logo surgiram as vozes críticas desta iniciativa, em diversos quadrantes. Em sentido totalmente oposto, sempre entendi e defendi, desde a primeira hora, que Lisboa e o país só têm a ganhar ao acolher este tipo de iniciativas, pelo seu alcance e repercussão.

A Web Summit – o maior evento de tecnologia do mundo – é o resultado de uma organização exemplar e atinge números de participação surpreendentes: mais de 70.000 envolvidos oriundos de 160 países, mais de 1.000 oradores, 2.300 startups e para cima de um milhar de investidores.

É legítimo afirmar-se, e é uma realidade insofismável, que o nível dos apoios públicos envolvidos é manifestamente significativo para um país como Portugal, que não pertence propriamente ao clube das nações ricas. Mas a aposta nas novas tecnologias deveria ser uma das nossas prioridades coletivas.

Estou perfeitamente convencido de que o retorno “tecnológico” desta iniciativa para o país e para a nossa capital poderia ser muito superior àquele que temos vindo a ter, desde a sua primeira edição em 2016.

É indesmentível a entrega de valor que a restauração, a hotelaria e o comércio têm durante os dias em que decorre o evento. Só na edição de 2019, última sobre a qual existe um estudo realizado, a conferência representou ganhos de 69,8 milhões de euros no Valor Acrescentado Bruto, enquanto o crescimento da receita fiscal foi de 29,7 milhões de euros.

Segundo o Country Managing Director da Portugal Web Summit, Artur Pereira, em 2021 foram levantados mais de mil milhões de euros em rondas de financiamento pelas startups nacionais e, em 2022, até setembro, este número ascendia a mais de 700 milhões de euros, muito fruto também do impacto do evento.

Contudo, e para além destes números, a visão e a ambição deveriam levar-nos a ir muito mais longe, tendo em conta que o tema “tecnológicas” implica criar condições financeiras, logísticas, fiscais, académicas, e outras, para conseguirmos reter esta inovação, esta indústria e este talento. O caminho tem de passar por uma visão/solução integrada, que permita rentabilizar este esforço que o país e a cidade fazem para manter este evento por estas paragens.

Cabe ao Governo, e também numa parte mais pequena à Câmara de Lisboa, apresentarem aos empreendedores portugueses aquelas que são as condições competitivas para ajudar a aumentar o número de startups, de incubadoras, de aceleradoras, assim como de investidores nacionais e estrangeiros.

De que nos serve investir milhões em incubadoras de startups, se aquelas que têm potencial e que começam a crescer são rapidamente deslocalizadas para outras geografias mais competitivas? Será que o poder político não sabe que isto acontece? Ou sabe e finge não saber?

A Web Summit não pode, nem deve, ser apenas uma passarela para alguns políticos nacionais proferirem lugares-comuns sobre as tecnologias. A conferência deve ser encarada pelos poderes públicos como algo instrumental para atingir um determinado objetivo. Esse é o verdadeiro passo que falta dar. Haja esperança!

 

Cristina Bernardo

Deve ser tido em conta o alerta do CES. No seu mais recente relatório, é referido o “relativo otimismo” no cenário macroeconómico apresentado pelo Governo no OE, e considerado que os riscos de não concretização são elevados e que apontam para uma tendência de aumentar ainda mais. Um aviso prudente, e bem-avisado, do organismo liderado por Francisco Assis.

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