Agressão ginecológica: um episódio, apenas

Não será tempo de expormos mais abertamente a violência ginecológica a que nós mulheres somos expostas? Sim. E nada desculpa este cenário, nem a luta entre médicos ginecologistas e Governo. A cada agressão deve corresponder uma queixa formal. Só assim podemos dizer com propriedade: “Sou dona do meu corpo. Exijo respeito, seja em que circunstâncias for”.

Faz hoje uma semana que fui fazer uma ecografia ginecológica por via endocavitária. Um exame de rotina, como normalmente faço. Eu e tantos milhões de mulheres que fazem vigilância regular ao colo do útero e ao restante aparelho reprodutor (assim apelidado) feminino. Nada de extraordinário, a não ser a brutalidade do tratamento que recebi do técnico-médico-mau-profissional. Ali senti-me abusada, sem defesa, frágil, enquanto era observada/agredida.

O momento – testemunhado por uma assistente claramente inexperiente e com medo daquele “chefe” – foi todo ele um episódio de horror em forma de filme da vida real, com big brother à mistura, inclusive.
A clínica é privada, mas o espaço onde me fizeram o exame tornou-se público: passei a ser uma mulher sem roupa da cintura para baixo, de pernas abertas, com a porta de acesso direto à sala de espera constantemente escancarada, onde mulheres, homens e crianças podiam – se assim entendessem – ver todos os pormenores das minhas pernas e partes genitais com um ecógrafo lá dentro.

O meu choque foi tal que o “doutor” que me fazia violentamente o exame sentiu uma contração enorme da minha vagina, o que lhe motivou uma espécie de revolta em forma de ralhete. Ora, não satisfeito com o potencial voyeurismo a que me havia exposto, decide – talvez para relaxar – atender um telefonema de agendamento privado enquanto a câmara do big brother continuava a esmurrar a minha vagina e a minha dignidade.

Só depois de emitir vários sons de dor, desconforto e de reprovação pela forma violenta com que estava a ser tratada, o dito profissional de saúde retira o ecógrafo com uma rudeza que ainda hoje me faz voltar a ter sensação de temor.

Depois de me mandar vestir rapidamente para avançar para mais uma ecografia vil, aquele homem – de mal consigo e com a vida, certamente – põe os olhos nos ecrãs que tem à frente, desligando-se por completo que estava ainda ali uma mulher que tinha acabado de agredir grotescamente.

Eu, como muitas outras mulheres que ali esperavam para ser observadas por aquele ser dantesco, descontente com a sua profissão, certamente, fomos vítimas de violência ginecológica. Este foi um episódio, apenas. Mas não deixo de imaginar quantas mulheres se sentiram lixo depois de terem passado pelas mãos – literalmente – de um profissional de saúde que está longe de cumprir o juramento de Hipócrates, que em princípio terá feito.

Posto isto, não será tempo de expormos mais abertamente a violência ginecológica a que nós mulheres somos expostas? Sim. E nada desculpa este cenário, nem a luta entre médicos ginecologistas e Governo. A cada agressão deve corresponder uma queixa formal. Só assim podemos dizer com propriedade: “Sou dona do meu corpo. Exijo respeito, seja em que circunstâncias for”.

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