CEO da Unicre: “Ainda não estou a ver o ‘cash’ a desaparecer”

João Baptista Leite revela que a Unicre está de olhos postos no ‘blockchain’ e mostra-se confiante nas suas aplicações práticas. CEO da Unicre diz que já não utiliza dinheiro físico, mas acredita que – por enquanto – ainda se vai manter.

Em entrevista ao JE, o CEO da Unicre recorda a aceleração dos produtos digitais, que atribui em grande parte à pandemia, e revela que a empresa já está a investir em blockchain, tecnologia para a qual está à procura de casos práticos de aplicação. Quanto ao dinheiro físico, que admite já não usar, não crê que desapareça tão cedo. E mostra-se interessado no euro digital que, nas suas palavras, “está aqui para acontecer”.

Os últimos dois anos trouxeram uma alteração aos hábitos dos consumidores, dando origem a novos modelos de negócio onde impera o digital. Têm sentido isso?
Sem dúvida. Está claro que, como país, estávamos relativamente atrasados –há dois ou três anos – face à evolução digital que estava a acontecer no mercado, muito no norte da Europa e em Inglaterra. Fizemos aqui algumas comparações e, de facto, sentíamos que estávamos no caminho certo, a apostar nos sítios certos. Mas sem a aceleração necessária. Estes últimos dois anos foram extraordinários. Este acelerar da evolução da digitalização dos pagamentos em particular foi um salto que nos adiantou, provavelmente, dez anos. Ainda estamos alguns anos atrás, eu diria, do norte da Europa. Mas foi uma evolução bastante grande e viu-se, por exemplo, no caso do contactless: em 2019, 15% das nossas transações eram em contactless e nem sequer falávamos do tema, independentemente do forcing que pudesse haver. Hoje, mais de 70% das nossas transações são, de uma forma natural, contactless. (…) Acho que estamos num ascendente desta digitalização que está a acontecer no nosso dia-a-dia. Não só na banca, nos pagamentos, mas também no retalho e mesmo na nossa relação com o Governo ou com a função pública.

Esse salto de que fala, em boa parte, foi dado na pandemia. O encerramento das lojas físicas fez explodir o comércio online – uma realidade que veio a ser validada recentemente por um relatório da ANACOM que revela um aumento do número de compradores online. Não acredita, portanto, que haja o risco de esta tendência se reverter no fim da pandemia?
Não. Aliás, estou claramente convencido que não. Os nossos hábitos mudaram. (…) Naturalmente, estamos aqui com múltiplos segmentos de mercado e com múltiplos segmentos de produtos. Um bom exemplo é a indústria automóvel. Lembro-me do último carro que comprei, há 30 anos. Fui a dez stands, visitei o carro e experimentei. Hoje já ninguém faz isso. Os simuladores de construção de carros são feitos em casa. Podemos, eventualmente, ir ao stand fazer o último balanço. São hábitos – e a facilidade e a comodidade é tanta que eu acho que está embutida no nosso dia-a-dia. Não há regresso possível.

Mais compras online signficam automaticamente um maior número de agentes económicos no palco digital. Que efeitos é que isso terá na competitividade, na otimização do processo de venda, até na experiência do consumidor?
Mudou a nossa forma de estar. (…) Hoje temos soluções que não necessitam de nenhuma integração tecnológica, chave-na-mão, em que qualquer pequeno comércio não precisa de nenhum conhecimento tecnológico (…) Ajudou o pequeno comércio a posicionar-se no mundo digital, independentemente das soluções (que também temos) de alta complexidade, para os grandes clientes que têm grande sofisticação. Através dos gateways dos pagamentos consegue-se fazer integrações de experiência do cliente na sua compra, e depois a racionalização toda do backoffice, através de reconciliações fáceis e eficazes de fazer. São exemplos de múltiplos segmentos de clientes, particulares e empresas, que, utilizando estas soluções tecnológicas, conseguem pôr-se a vender e receber com muita eficiência. E com muito eficácia, acima de tudo.

Diria que a alteração da nossa relação com o dinheiro físico, e também digital, com a entrada de criptomoedas nalgumas wallets, vai mudar a forma como compramos?
Eu praticamente não utilizo dinheiro [físico]. Vimos os dados estatísticos que o Banco de Portugal publicou há pouco tempo. Eu não estou a ver o cash a desaparecer, ainda. Mas temos um trajeto bastante grande a fazer. (…) A introdução das criptomoedas, enfim, com tudo o que as criptomoedas têm – até porque não são reguladas, suportadas, nem protegidas por um skim central. Mas claramente, a facilidade de utilização e a introdução destas tecnologias, como o blockchain, vai-nos ajudar e facilitar muito na forma como nos relacionamos.

Acha que a entrada em circulação, num futuro próximo, de govcoins – criptomoedas emitidas pelos bancos centrais – trará novas dinâmicas ao mercado?
Estou convencidíssimo que sim. Um dos problemas da criptomoeda hoje, sabemos, é a volatilidade, não é? Não permite que se associe a isto nenhuma regulamentação nem sequer colocar um preço nos produtos, porque aquilo varia a qualquer momento. Demos aqui um salto com as stablecoins, que já são suportadas em algum modelo de ativos. Mas o trabalho que os bancos centrais têm estado a fazer, ao tentar criar um modelo de euro digital gerido, coordenado e suportado centralmente… eu acho que está aqui para acontecer. A tecnologia existe, portanto agora como é que eu junto isto ao nosso mundo real? Não consigo imaginar quanto tempo [levará], mas percebo que hoje as entidades europeias, em parceria muito com os países, estão a trabalhar afincadamente nisto e vai mudar a forma como nós nos relacionamos com o dinheiro, com as compras e com o cash.

Que papel terá o blockchain nas operações e no futuro da Unicre?
Nós estamos à procura de use-cases. O investimento ainda é razoável e o use-case para a utilização da tecnologia estilo blockchain… Existem várias. Nós estamos nesta fase a discutir muitas das possíveis alternativas. Nos próximos meses começaremos então a trazer estes use-cases para um caso prático, para as suas implementações. A minha opinião é que vai ser a tecnologia de suporte a muitos modelos de contratação, gestão de ativos, gestão de identidades, porque é uma tecnologia que permite facilidade, garantia, solidez e segurança – que é algo que vamos estar todos à procura.

Assista a esta conversa na íntegra na JE TV, em jornaleconomico.pt

Recomendadas

À beira dos 100 anos de vida, Disney está prestes a perder os direitos sobre o Mickey

Os direitos de autor sobre a personagens estão quase a expirar e vão passar para domínio público, como consequência da lei dos Estados Unidos.

Jogos Olímpicos 2024. Empresa portuguesa recebe cinco milhões para construção arquitetónica

O contrato está inserido numa operação de 136 milhões de euros e visa a construção da Arena Porte de la Chapelle, que vai servir de palco para os Jogos de 2024.

MP pede ao Tribunal da Concorrência para manter coima de 48 milhões à EDP e empresa pede absolvição

O Ministério Público pediu hoje ao Tribunal da Concorrência para manter a coima de 48 milhões de euros aplicada à EDP Produção por abuso de posição dominante, tendo a empresa defendido a absolvição “pura e simples”.
Comentários