Ainda se lembra que votou PS?

O Governo tem uma maioria absoluta conquistada em janeiro e uma legitimidade inatacável. Tem cinco meses de existência e em diversos domínios já parece comatoso.

O primeiro-ministro não chega para tudo. É um mata-borrão de qualidade, como disse Marcelo Rebelo de Sousa, abafa e apaga muitas trapalhadas do seu Executivo, mas o seu voluntarismo não basta quando o problema é mesmo falta de bom senso.

O caso de Fernando Medina, que nunca abriu a boca em defesa da sua decisão e opção por Sérgio Figueiredo, e que pelo seu silêncio ajudou a queimar a escolha do ex-jornalista para o seu gabinete (cargo a que já renunciou), é gritante de que há ministros em roda livre e que vão contribuindo para a desafinação da orquestra com um maestro que muitas vezes desconhece o solo dos ministros, o que adensa o ritmo de descoordenação política, sendo que o dossier Pedro Nuno Santos-aeroporto continua como o evidente clímax de uma ópera-bufa.

A história política portuguesa ensina-nos que este tipo de clima surge, habitualmente, em fins de ciclo. Ora, o Governo tem uma maioria absoluta conquistada em janeiro e uma legitimidade inatacável. Tem cinco meses de existência e em diversos domínios já parece comatoso.

A falência de resposta de diversos serviços do Estado (evidentes na saúde, segurança e na máquina da administração pública, onde o atendimento aos cidadãos é uma vergonha total) acentua o cenário de desagrado de muitos concidadãos que, provavelmente, já se esqueceram que votaram PS há bem pouco tempo.

Por isso se espera que o PSD, para lá do que apelidei de oposição de ocorrências – e que é normal pois o trabalho da oposição é detectar, fiscalizar e denunciar casos e ocorrências que na acção política do Governo possam ser lesivos dos portugueses – tenha uma atitude forte de crítica que Rui Rio nunca ousou, pois sonhava com o casamento de conveniência com António Costa, mas também uma postura agregadora porque deixou de ser sexy, e um discurso abrangente que se valide em propostas concretas que marquem a agenda, algo de que o plano de emergência social é um bom contributo.

O novo líder tem o partido unido. Agora precisa de se dar a conhecer aos portugueses. E, ao contrário do seu antecessor, como no tempo certo eu disse na CNN, tem orgulho no legado de Pedro Passos Coelho que foi ao Pontal para lhe dar apoio, grato a quem também o ajudou aquando da sua passagem por São Bento.

E daqui a uns tempos, como irão ver, ainda mais se se acentuar a crise e a carestia social, que contribuirão para o apodrecimento do Governo, a marca Pedro Passos Coelho será valiosa e uma muleta importante para o PSD. Luís Montenegro tem o primeiro mérito de já ter percebido isso.

 

PS: Passou despercebida a notícia de que 500 juízes nacionais responderam a inquérito europeu, 26 por cento acreditam que há magistrados que receberam subornos ou se envolveram em outras formas de corrupção. Quando são os próprios juízes a dizer que há corrupção e subornos entre eles, isto é de uma gravidade tão grande que põe completamente em causa um dos pilares do Estado.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

Recomendadas

Por favor, acertem a manga do casaco!

Este governo de António Costa, quando tudo indicava reunir as condições devidas para uma navegação calminha, anda ele próprio a criar as suas ondas sucessivas de ruído. Em seis meses de governação, as ondas de maré já se desenvolvem com um barulho ensurdecedor. É tempo de dizer, senhores ministros, falem entre si antes de pôr […]

Uma banca portuguesa cada vez mais ‘ibérica’

Uma fusão entre BPI e Novobanco poderia fazer sentido à luz daquela que tem sido a estratégia do CaixaBank para crescer no mercado ibérico.

As pessoas não podem ficar para trás na nova era

Milhões de euros de investimentos e centenas de megawatts. Ao escrever e ler sobre o mundo da energia, é normal que os grandes números sejam abordados, tal a dimensão dos projetos.
Comentários