Alguém se opõe a que se reforme e invista no SNS em Portugal?

O que está a ocorrer é uma catástrofe, e o bem comum impõe que se reforme e se invista no SNS. Existindo, estou certo (digo-o sem qualquer ironia), um consenso nacional sobre esta necessidade, o que o impede, afinal?

Tenho acompanhado as notícias sobre as dificuldades sentidas pelo Serviço Nacional de Saúde (SNS) com tristeza, irritação e estupefação. Tristeza porque a inércia e a ausência de reformas que caracterizou os últimos anos era por demais evidente. Em virtude disso, era uma questão de tempo até que ocorresse uma tempestade perfeita que aliasse os problemas crónicos de gestão, a falta de recursos humanos e as recorrentes limitações financeiras. Irritação porque sou um acérrimo defensor do SNS.

Custa-me ver uma das maiores construções da nossa democracia sofrer danos reputacionais e operacionais que apenas beneficiam interesses particulares. E estupefação perante a ligeireza com que os problemas estruturais que afetam o SNS são tratados superficialmente no espaço público e na arena política.

O que se está a passar no SNS é um desastre presente e futuro, com impactos óbvios e outros nem tanto. Naturalmente, os mais pobres e por consequência os mais desprotegidos, sem alternativas ao seu alcance, não têm qualquer outra hipótese. O SNS é a única opção ao seu dispor. Se o Estado não investe e não reforma o sistema de saúde, são eles quem está na linha da frente a sofrer as consequências da inércia política e governamental. É lamentável que assim seja, numa sociedade que se quer solidária e que tem orgulho em o afirmar.

Quem tem um seguro ou um subsistema de saúde está mais protegido. Perante as dificuldades sentidas pelo SNS pode sempre recorrer a outros prestadores de cuidados de saúde, sejam eles privados ou do setor social, não lucrativo. Porém, a ausência de reformas e de investimento pelo Estado no SNS também tem impactos para quem tem seguros. Afinal, o seu acréscimo de consumo repercute-se nos prémios futuros das apólices ou no seu grau de cobertura. Não há almoços grátis.

O mesmo se passa com os subsistemas de saúde. Estes são complementares e não substitutivos do SNS. Contudo, se os beneficiários os utilizarem cada vez mais numa lógica substitutiva, tal gera impactos financeiros que, em teoria, impõem uma de duas soluções.

A primeira é a entidade financiadora aumentar o seu esforço de financiamento. Na Banca, por exemplo, as instituições de crédito não têm reforçado o seu financiamento para fazer face aos aumentos nos preços praticados nos atos médicos, ou ao acréscimo de consumo. A segunda opção, na ausência de viabilidade da primeira e perante a pressão financeira do consumo acrescido, passa por ser menos generoso no perímetro de comparticipação. É uma tendência que, infelizmente, por mais ganhos de eficiência que se procurem alcançar, não pode ser posta de parte.

Portanto, o que se passa com o SNS interessa diretamente a todos os portugueses. Aos que não têm alternativas, em primeiro lugar e de forma mais óbvia, mas também aos portugueses que ao SNS recorrem com menos frequência.

Regresso, por isso, ao início. O que está a ocorrer é uma catástrofe, e o bem comum impõe que se reforme e se invista no SNS. Existindo, estou certo (digo-o sem qualquer ironia), um consenso nacional sobre esta necessidade, o que o impede, afinal?

Recomendadas

Ter filhos para criar

Quem é que arrisca, hoje em dia, ter filhos para criar no nosso país? Às portuguesas em idade fértil, então, pede-se que corram riscos cada vez mais extremos – num retrocesso inqualificável, pede-se que decidam arriscar ser mães.

Crescer (digital) do país: Wild Wild West instalado de RH

O problema está no facto das empresas portuguesas estarem a competir, cada vez mais, com multinacionais cada vez maiores, mas sem os mesmos recursos, e não saberem como conduzir num mundo de alta velocidade.

Como empobrecer em três meses

À Manuela passou a faltar dinheiro quase todos os meses, o que a faz viver numa angústia permanente, latente e inquieta. E, claro está, não há lugar a poupanças, deixou de haver orçamento para lazer, ou sequer para as viagens habituais à terra dos pais.
Comentários