AllianzGI: Abrandamento mais significativo da economia pode travar ritmo de subida de juros

A Diretora Global de Investimento em ações da AllianzGI, Virginie Maisonneuve, alerta que o abrandamento da economia deverá ser mais significativo do que se espera. E isto poderá levar os bancos centrais a subirem menos as taxas de juro do que aquilo que os mercados antecipam.

A subida das taxas de juro já começou nos EUA e o Banco Central Europeu (BCE) prepara-se para dar este passo nos próximos meses. Mas, alerta a Allianz Global Investors (AllianzGI), os bancos centrais podem vir a surpreender os mercados, uma vez que não devem aumentar tanto os juros quanto os investidores antecipam. O abrandamento da economia, que já estava em curso antes da pandemia, pode ser mais significativo do que se prevê e isso terá impacto no ritmo de normalização da política monetária.

“O choque da guerra, que veio aumentar a inflação, acelerou a destruição da procura. Antes da Covid-19, já estávamos a entrar num ciclo de aperto da política monetária, levando a um abrandamento. Depois, veio a Covid-19. Tivemos uma injeção [de liquidez] e isso criou uma procura artificial porque o dinheiro era tão barato”, afirmou a Diretora Global de Investimento (CIO) em ações da AllianzGI, Virginie Maisonneuve, esta quarta-feira, num encontro com jornalistas em Lisboa.

Depois, referiu, “temos o efeito de base. Quando as cadeias de distribuição estavam a normalizar, assistimos a um aumento da procura. Aí, entrou o efeito de base [comparação de preços no momento atual com os do período da Covid-19]. Mas a destruição da procura estava já a acontecer. E quando as taxas de juro sobem, temos abrandamento [da economia]”.

“Penso que estávamos a caminho de um abrandamento, mas estava escondido pela injeção da pandemia. O efeito de base ia mostrar-nos isso, tanto na inflação como na procura”, disse a CIO em ações da AllianzGI. “Depois a inflação disparou e os bancos centrais foram apanhados de surpresa. Atrasaram-se na resposta a algo que já aconteceu [a subida acentuada dos preços]. Eles estavam a fazer um compasso de espera, aguardando que as vagas de Covid-19 abrandassem.”

Mas “agora que estamos perante um ciclo de subida de juros muito rápido, o abrandamento da economia deverá ser mais significativo”, afirmou Virginie Maisonneuve, notando que “estamos num abrandamento sincronizado e vamos ver isso nos próximos seis meses”.

Sobre os EUA, a responsável considera que “é uma interrogação, porque a economia ainda está resiliente”. Ainda assim, a economia “também vai abrandar”. Isto ao mesmo tempo que, “na Europa, provavelmente teremos uma recessão. Mas isso nem tem de ser propriamente uma má notícia para os mercados”.

Por outro lado, a “China terá um ciclo independente”, uma vez que “grande parte do seu crescimento deve-se ao mercado doméstico”. A Diretora Global de Investimento diz que o país “pode não alcançar a meta dos 5,5%, mas num mundo em recessão, um crescimento de 4% será bom”.

Juros vão subir mas não tanto quanto prevê o mercado 

Este abrandamento mais acentuado do que previsto vai acabar por ter impacto na forma como os bancos centrais nos EUA e na Europa vão implementar a política monetária. Tudo “vai depender da dimensão do abrandamento” da economia, bem como da evolução da guerra, da inflação e da destruição da procura, afirmou Virginie Maisonneuve aos jornalistas.

“Na minha perspetiva, o mercado pode ser surpreendido por ir haver menos subidas das taxas de juro do que se espera atualmente nos EUA”, porque “este abrandamento vai ser mais forte do que o esperado”, sublinhou, reforçando que “estamos num abrandamento sincronizado e pode ser mais forte do que as pessoas esperam”.

A Reserva Federal dos EUA deu início à subida dos juros, este mês, aumentando em 50 pontos base. Jerome Powell, presidente da Fed, já chegou a admitir aumentos em todas as reuniões (ao todo, sete) de política monetária este ano.

Na Europa, o BCE deverá dar este passo muito em breve. Esta semana, numa publicação sobre a normalização da política monetária, Christine Lagarde confirmou que a o Banco Central Europeu começará a subir as taxas de juro em julho e que a zona euro sairá das taxas de juro negativas até ao final do terceiro trimestre.

“Precisamos de taxas de juro positivas para o sistema funcionar”, afirmou a CIO em ações da AllianzGI. “Penso que [os bancos centrais] vão tentar ter taxas de juro ligeiramente positivas”, mas isso “vai depender da inflação”, rematou.

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