“Almada Negreiros foi um homem de espetáculo, um performer desde o início”

Realiza-se pela primeira vez em Portugal uma exposição dedicada aos livros de artista de Almada Negreiros (1893-1970), uma das personalidades que mais contribuiu para o panorama artístico e literário do séc. XX. Sara Afonso Ferreira, comissária da exposição, explica a relevância deste tipo de produção na obra do autor. Como surgiu o convite para comissariar […]

Realiza-se pela primeira vez em Portugal uma exposição dedicada aos livros de artista de Almada Negreiros (1893-1970), uma das personalidades que mais contribuiu para o panorama artístico e literário do séc. XX. Sara Afonso Ferreira, comissária da exposição, explica a relevância deste tipo de produção na obra do autor.

Como surgiu o convite para comissariar a exposição “Almada Negreiros: O que Nunca Ninguém Soube que Houve”?
José Manuel dos Santos e João Pinharanda (diretor e programador cultural da Fundação EDP, respetivamente) tiveram acesso a parte do espólio de Almada Negreiros, que está agora a ser trabalhado por uma equipa de investigação da Universidade Nova de Lisboa, da qual faço parte. Ficaram muito entusiasmados com os Livros Geométricos do Almada já de uma fase tardia da sua obra. Conversámos sobre a possibilidade de expor estes livros no Museu da Eletricidade, mas acabou por nascer um projeto mais amplo, centrado na produção de livros de artista ao longo da vida de Almada Negreiros.

São quantas obras?
Aproximadamente 70. Não é uma exposição enorme porque as obras são de pequena dimensão.

Sendo uma exposição centrada em livros de artista, não há o risco de ser vista como uma mostra documental ou bibliográfica?
Sim, esse foi um dos problemas essenciais com que nos deparámos quando pensámos em expor livros de artista, até porque Almada é um escritor reconhecido. Havia o perigo de o público olhar para a exposição como uma mostra de livros e não como de livros de artista. Como expor estas obras era o desafio que se impunha. Optámos por organizar o discurso expositivo em cinco momentos, porque visual e esteticamente são peças relativamente diferentes, e também porque a disposição da Sala do Cinzeiro 8 proporciona este tipo de organização.

Pelo título –“Almada Negreiros: O que Nunca Ninguém Soube que Houve” – percebe-se qual a obra em destaque. O livro de artista “O Pierrot que Nunca Ninguém Soube que Houve. História Trágica e Ilustrada com Sol e Palmeiras”, de 1921/1922, está longe de ser o mais conhecido de Almada, porque o escolheu para ditar o rumo da mostra?
Na construção do projeto a peça central da exposição sempre foi essa. É uma obra pioneira muito próxima do que se fazia no resto da Europa. No quadro português, só poderia ser Almada a iniciar a produção de livros de artista tão cedo. “O Pierrot que Nunca Ninguém Soube que Houve. História Trágica e Ilustrada com Sol e Palmeiras” tem aquela parte preciosa de não ser uma edição mas sim um objeto de autor, manuscrito e com uma encadernação feita pelo próprio Almada. A capa é desenhada por ele, contém cinco ilustrações suas a tinta da China e cinco páginas de texto escritas pela sua mão. É um exemplar próximo das revistas manuscritas “Parva”, que estão guardadas no Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa.

Esta obra foi produzida num contexto pouco conhecido da vida de Almada Negreiros, o “Club das Cinco Cores”. Como surgiu este grupo que, até então, era visto apenas como um curto episódio na história de Almada?
A história do nascimento deste grupo está ligada às representações portuguesas dos Ballets Russes em 1917 e 1918, no âmbito dos espetáculos de dança promovidos por Helena Castello Melhor para a alta sociedade. Em 1918 Helena Castello Melhor organiza um espetáculo no Teatro São Carlos que conta com a colaboração muito próxima de músicos e artistas portugueses, entre os quais Raul Lino, José Pacheco, Rui Coelho e Almada Negreiros. Acabaram por se realizar dois bailados: “A Princesa dos Sapatos de Ferro” e “O Bailado do Encantamento”. Neste último Almada foi coreógrafo, e no primeiro realizou os figurinos, tendo também coreografado e dançado dois papéis. Foi neste contexto que Almada conheceu algumas meninas que dançaram a cena das crianças no “Bailado do Encantamento”. E que eram Maria Adelaide Burnay Soares Cardoso, mais conhecida por “Lálá”, Maria da Conceição de Melo Bryner, conhecida por “Tatão”, Maria Madalena Morais da Silva Amado, a “Tareca”, e Maria José Cardoso, irmã de “Lálá”, mais conhecida como “Zeca”.

Que idade tinham?
Nessa altura tinham entre os 12 e os 16 anos. Esse grupo de jovens propôs a Almada, nesse mesmo ano de 1918, que fizesse um bailado com elas. E o “Jardim da Pierrette” veio, de facto, a realizar-se, com argumento de Tatão e música de Craig e Chopin, tendo tido uma apresentação única em junho desse ano numa festa de caridade. Terá sido no âmbito desse bailado que se formou o “Club das Cinco Cores”. Almada era a cor verde, a “Tareca” a roxa, a “Lálá” a branca, a “Tatão” a azul e a “Zeca” a vermelha. Parece apenas uma brincadeira mas não foi, porque foi precisamente neste contexto que Almada escreveu alguns dos textos iniciais daquilo que se conhece como a Poética da Ingenuidade, que Negreiros desenvolve em Paris, onde vive relativamente isolado entre 1919 e 1920. São disso exemplo “Os Ingleses Fumam Cachimbo” e as revistas “Parva”.

Quanto tempo durou a correspondência neste grupo?
Entre 1918 e 1931. Grande parte destas cartas ainda existem porque a “LáLá” as conservou. São dirigidas ao “Club das Cinco Cores” e iam todas para sua casa.

A exposição desenvolve-se em cinco núcleos – o que podemos visitar em cada momento?
O primeiro momento é dedicado à revista “Orpheu” e às vanguardas. Mostram-se sobretudo as experiências tipográficas e de poesia visual de Almada Negreiros. É também neste momento que estão expostos os figurinos da “Princesa dos Sapatos de Ferro”, uma maquete do cartaz Boxe de 1915, com um autorretrato do Almada e umas fotografias de estúdio tiradas por Vitoriano Braga, em que Almada se encena em poses de escultura clássica. Este momento expositivo diz respeito, essencialmente, aos anos de 1915 a 1917, apesar de existirem algumas peças dos anos 50 que são uma revisitação a “Orpheu”.

O segundo momento é dedicado ao já falado “Club das Cinco Cores” e à obra-estrela da exposição, mas está também intimamente relacionado com “A Invenção do Dia Claro”, que constitui o momento subsequente.
Sim, é aqui que surge a obra “O Pierrot que Nunca Ninguém Soube que Houve”, mas também as “Parva” e alguns manuscritos inéditos como o poema “La Lettre”, dedicado à “Tareca”. A nível de imagem, mostra-se uma série de desenhos que Almada envia ao “Club das Cinco Cores”. Dá-se também a conhecer o gesto manuscrito e desenhado do poeta-pintor, proclamado na sua terceira exposição individual no Teatro de São Carlos, onde apresentou os desenhos feitos em Paris e no âmbito da qual dá a conhecer o manifesto poético da ingenuidade no texto “A Invenção do Dia Claro”, publicado em 1921. Portanto, nestes dois núcleos estamos a falar de obras produzidas entre 1918 e 1922.

E nos últimos dois momentos expositivos?
O quarto momento é mais amplo e poderia percorrer a exposição toda, intitula-se “A Tragédia da Unidade”, que remete também para o título de um texto de Almada, do qual se expõe o manuscrito. A ideia foi fazer a relação da unidade, de “1+1=1” na obra de Almada, não só no texto e na imagem que se unem como em todas as esferas na obra e vida de Almada. Aqui expõem-se desenhos que se apresentam como narrativas gráficas, como se fossem livros só de imagens. No último momento apresenta-se o “Cânone”, que acaba por englobar todas as pesquisas geométricas e numéricas, onde expomos um núcleo considerável de livros em harmónio. O enfoque é o estudo da geometria como característica profundamente visual. Expõem-
-se os estudos para a “Disposição dos Painéis de Nuno Gonçalves na Sala do Capítulo do Mosteiro da Batalha” e para o painel “Começar”; os ensaios (publicados) “Mito-Alegoria-Símbolo” e “A Chave Diz”, bem como uma série de cadernos inéditos (encadernados, manuscritos e ilustrados pelo autor na década de 1970).

Qual a proveniência das cerca de 70 obras expostas?
Há uma série de obras emprestadas da Biblioteca Nacional, da Biblioteca de Arte da Fundação Calouste Gulbenkian, do Centro de Arte Moderna, muita coisa da família e de coleções particulares. Mas a maior coleção pertence aos herdeiros de Almada Negreiros.

Como define um artista como Almada Negreiros?
Acho que Almada Negreiros é daqueles artistas que escapa a qualquer definição. Mas se tenho de dizer alguma coisa que ele tenha sido e que abarca, absolutamente, tudo o que fez, então respondo-lhe que foi um homem de espetáculo, um performer desde o início. O espetáculo foi a obra dele e transformou tudo num espetáculo. Um performer que trabalhou com vários meios!

A exposição “Almada Negreiros: O que Nunca Ninguém Soube que Houve” encontra-se no Museu da Eletricidade, em Lisboa, até 9 março.

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