Alteração da narrativa

O general norte-americano Mark Milley deu recentemente nota de que as negociações seriam a solução lógica para o conflito ucraniano, salientando que “ambos os lados devem chegar, por eles próprios, a essa conclusão”.

As primeiras semanas da guerra na Ucrânia deram alento àqueles que pensavam ser possível a Ucrânia, devidamente treinada e equipada pelo Ocidente, vencer militarmente a Rússia.

A superioridade militar da Rússia começa a vir ao de cima. Não significa que a guerra esteja ganha por Moscovo, até porque não sabemos ainda o que significa para a Rússia, em termos territoriais e políticos, ganhar esta guerra. Não se conhecem declarações das autoridades russas sobre essa matéria.

Mas, no ar, paira uma tendência. Para além da evolução da situação tática no Donbass, há relatos de rendições e deserções entre as forças ucranianas. São públicas as mensagens de soldados desesperados, que se queixam da falta de munições, artilharia, equipamento inoperável, ao que se adiciona a dificuldade em rodar forças, situações que chocam com a imagem de um exército vencedor, como deu nota o “Washington Post”.

Estes desenvolvimentos parecem pressagiar o insucesso das forças ucranianas, uma realidade que não se pode negar. Interrogamo-nos também sobre a sua capacidade para lançar uma contraofensiva que inverta o atual rumo dos acontecimentos, e os revezes sofridos no campo de batalha.

Esta inversão da tendência tem sido acompanhada no plano político por vários desenvolvimentos, que apontam para a necessidade de se encontrar, quanto antes, uma solução política. O primeiro-ministro italiano Mario Draghi apresentou ao Secretário-Geral da ONU António Guterres um plano para terminar o conflito assente em quatro pontos.

Por outro lado, o “New York Times” referiu, que “à medida que a guerra continua, Biden deve deixar claro ao presidente Volodymyr Zelensky, e ao seu povo, que existe um limite para o empenho dos Estados Unidos e da NATO no confronto com a Rússia, e limites para as armas, dinheiro e apoio político que eles podem reunir.” Continuava afirmando “ser imperativo que as decisões do Governo ucraniano sejam baseadas numa avaliação realista de seus meios e de quanta destruição a Ucrânia pode suportar… confrontar esta realidade pode ser doloroso… é isso que os governos têm o dever de fazer, e não correr atrás de uma «vitória» ilusória.”

No mesmo sentido, pronunciou-se o ex-secretário de Estado Henry Kissinger, no Fórum Económico Mundial, afirmando que as negociações deviam começar dentro dos próximos dois meses, sugerindo que, “idealmente, a linha divisória regressasse ao statu quo ante.” Mais recentemente, frustrando a aspiração de Kiev, o Presidente Joe Biden decidiu não fornecer sistemas de lançamento múltiplo de foguetes, que pudessem atingir o território russo na profundidade.

Contrariando avaliações anteriores, parece que Kiev não vai gozar de um apoio de equipamento e armamento “ilimitado”, como inicialmente se pensava.

Divergindo das declarações do Secretário de Defesa Lloyd Austin, quando há mais de um mês referiu que o objetivo era enfraquecer a Rússia, o general Mark Milley deu recentemente nota de que as negociações seriam a solução lógica para o conflito ucraniano, salientando que “ambos os lados devem chegar, por eles próprios, a essa conclusão”.

Parece incontornável que algo está a mudar em Washington, acompanhando a evolução da situação no terreno, que tende a piorar para a Ucrânia. Quanto mais tarde Kiev negociar pior será. Em último caso, poderá não lhe restar mais nada do que assinar a capitulação.

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