David Munir: “Ambos têm de reconhecer a existência do outro”

Osheik David Munir aceitou falar sobre o tema do momento:Jerusalém capital política de Israel. AComunidade Israelita de Lisboa preferiu não responder.

O principal responsável pela comunidade muçulmana portuguesa considera a iniciativa de Donald Trump um motivo, mais um, para desestabilizar o Médio Oriente. Já quanto à posição da União Europeia, é bem menos crítico: o sheik David Munir aplaude a sensatez de Bruxelas. Sem saber se haverá ou não uma nova guerra no Médio Oriente, Munir está à espera que apareça uma voz, muçulmana e provavelmente árabe, que possa liderar uma espécie de cruzada, desta vez pela paz.

Como comenta esta decisão de Donald Trump em assumir Jerusalém como capital de Israel?
Todos sabemos que Jerusalém é um lugar sagrado, um lugar religioso para muçulmanos, cristãos e judeus. Nos dias de hoje, quase todos os estados separam o que é o político daquilo que é religioso – por isso é que há muitos países laicos. Sabendo-se que Jerusalém é um lugar sagrado das religiões monoteístas, é uma insensatez considerá-la a capital política de um Estado, sabendo nós que, maioritariamente, as pessoas desse Estado pertencem a uma dessas religiões. Como capital religiosa, sempre o foi para a três religiões monoteístas. A política tem destruído muita coisa. De há cem anos para cá, já tivemos duas guerras mundiais e tem-se falado muito sobre a terceira! Nada disto vem aproximar os palestinianos dos israelitas.

Pelo contrário.
Pelo contrário. Vem criar mais tensão, como se estivéssemos a atirar lenha para uma fogueira. Foi uma decisão algo precipitada, que não foi politicamente correta. E vai ter consequências: o ódio gera ódio. Isto vai continuar até que haja alguém – vem aí o Natal, pode ser que apareça alguém – que venha suscitar um consenso.

O que não é de esperar… Como vê o futuro imediato do Médio Oriente?
O futuro imediato do Médio Oriente depende de um problema que existe há 40 anos – a guerra entre Israel e a Palestina. Enquanto não curarmos essa ferida… e estamos a dar a medicação errada.

Parece haver agora outra: a questão entre xiitas e sunitas. Como encara esta outra frente do conflito?
Isso veio muito depois. Quando falamos em termos políticos, de palestinianos – independentemente de serem cristãos, muçulmanos, xiitas ou sunitas – estamos a falar precisamente de palestinianos; quando falamos de israelitas, estamos a falar de cidadãos de Israel – podem ser judeus ou não ser, sabendo que o são maioritariamente. É um problema político. Quando queremos acrescentar um interesse pessoal, colocamos um rótulo religioso. Daí a questão entre xiitas e sunitas. Em Israel também há ortodoxos, conservadores, moderados, há quem não concorde com a política de Israel, há quem concorde, há quem seja capaz de utilizar o Livro Sagrado para defender a sua posição, há quem não o use e prefira o nacionalismo, o patriotismo… tudo depende de quem está à frente do país.

Como observa a reação da Europa em relação à decisão de Trump? Nenhum país europeu seguiu os Estados Unidos, nenhum aceitou conceder a Jerusalém o estatuto de capital política de Israel. A recente visita do primeiro-ministro israelita à Europa foi um fracasso.
Há países europeus que têm uma relação de anos com os Estados Unidos, e há países que se têm afastado. A União Europeia tem tido, felizmente, uma voz sólida, moderada e coesa. Porque a União Europeia quer manter todos os países, independentemente de serem ou não aliados dos Estados Unidos, no âmbito de uma espécie de universalismo – para com todos os que respeitam as normas europeias, e quem não as respeitar sofrerá não hostilidade, mas algum afastamento. O que aqui está em causa é a paz. Não é com posições radicais que a conseguimos impor. Estamos a falar de duas nações, de dois Estados. Ambos têm de reconhecer a existência do outro.

Alguns observadores entendem que a questão de Jerusalém está inscrita no problema mais geral do confronto entre a Arábia Saudita e o Irão. Está de acordo?
Não têm nada a ver um com o outro, apenas há alguma coincidência. Nota-se uma tenção crescente entre os Emirados, a Arábia Saudita e, por outro lado o Qatar, o Irão, o Líbano – tudo isso é muito fragmentado. Acho que tem de surgir um líder islâmico, provavelmente árabe, que dê um murro na mesa e diga: “meus senhores, vamo-nos sentar e conversar sobre o bem-estar do Médio Oriente, deixemos as politiquices de parte”.

O príncipe herdeiro da Arábia Saudita, Mohamed bin Salman, pode ser essa figura?
Não sei, não faço ideia – não consigo imaginar. Mas tem de haver alguém que consiga manter essa posição firme.

Se isso não acontecer, acha possível que venha a rebentar uma guerra no Médio Oriente?
O Médio Oriente é o pulmão. Se todos nós – políticos, religiosos, todos – não formos cautelosos, podemos destruir muita coisa.

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