Andamos aparvalhados

Para progredir é imprescindível uma análise dos erros passados, é essa a base da história evolucional da humanidade sustentada na experimentação. Algo que uma boa parte da “direita” ainda não percebeu, os adoradores de Passos Coelho (PPC) e de Portas falham em não assumir que foram eles a semente da Geringonça.

Foi por causa do liberalismo de interesses do Governo a que presidiram que três arqui-inimigos se juntaram para mais um Governo de interesses minoritários.

É certo que PPC apanhou o país sem dinheiro, mas também é inequívoco que o rumo das suas políticas de restrições já estava traçado num documento assinado pelas principais forças políticas, ou seja o “sucesso” de aguentar o país que muitos lhe dedicam não passa de uma ilusão.

Da mesma forma que o ilusório “sucesso” da Geringonça não passa de um elaborado embuste, assente na manipulação mediática da informação e secundada pela completa ausência de princípios do BE e PCP. Todos os louros que a Geringonça anda a querer colher dos actos que praticou, podiam ter sido efectuados por outro qualquer Governo, incluindo o anterior, que recordo implementou medidas transitórias que de uma forma ou de outra acabariam por resultar na mesma lenga-lenga da “reposição” de rendimentos apregoada pelo Governo actual.

Existe contudo uma enorme diferença entre PPC e António Costa, o primeiro foi um autêntico cepo, tanto na gestão da comunicação, como na orientação das políticas económicas, fruto da sua absoluta inexperiência política e de economia real. Já Costa apesar de nada fazer pelo progresso económico nacional é um exímio gestor de comunicação, um facilitador e um estratega. Foi ele que soube aproveitar a deixa de PPC e explorar a hipocrisia do BE e PCP.

Vejamos, um Governo de “esquerdas”, social e defensor dos mais desfavorecidos, nunca, mas nunca, aumentaria os funcionários públicos antes de alocar esse dinheiro para dotar os serviços sociais de competências humanas e materiais suficientes para cumprir com a sua função, nomeadamente erradicar os sem abrigo, apoiar irrepreensivelmente os mais desfavorecidos em risco, crianças e idosos, resolver a questão do cuidador informal, garantir o cumprimento da constituição no que ao direito à habitação diz respeito, oferecendo soluções para os que não podem pagar as rendas galopantes resultantes de uma aposta desenfreada no turismo.

Estes são apenas alguns pontos onde o Governo falhou e caro(a) leitor(a), no campo social basta o “desperdício” de uma única vida que seja, fruto da incompetência do governo, para este falhar em toda a linha. As tragédias dos incêndios, o colapso do SNS, com doentes a morrerem por falta de auxilio adequado, o colapso da justiça e a escravização da força de trabalho, não são coincidências, são resultado de uma política premeditada de pagar os votos de alguns, deixando para trás, os mais desfavorecidos.

Que não restem dúvidas, o clima de contestação de funcionários de pedras basilares de um Estado de Direito, como os Juízes, Ministério Público, Polícia Judiciária, Enfermeiros, SEF ou funcionários do fisco não são acasos, muito menos a idiotice propagada por Centeno, Costa e BE de que é porque vivemos melhor. Não, é sim porque as pessoas se sentem enganadas ao fim de três anos de demagogia e embuste de um Governo, que todos os dias grita aos quatro ventos que estamos melhor.

Precisaria de um livro para enumerar todos os casos onde os dados desmentem o spin da Geringonça, deixo aqui apenas alguns, porque os números são como algodão, não enganam. O desemprego tem descido? Sim, mas que emprego tem sido criado? De acordo com a Segurança Social, dos 125,000 postos de trabalho criados em 2017, mais de 90,000 foram de vínculo não duradouro e no total existiam cerca de 950,000 trabalhadores precários no final do ano. A propósito do Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza, foi conhecido que 23,3% da população nacional está em risco de pobreza ou exclusão, são mais de 2 milhões de cidadãos!

E o pior? É a política de esgoto a céu aberto, é depois da aprovação de quatro Orçamentos de Estado (OE), o BE vir dizer que a perseguição ao deficit zero é errada, ou o PCP afirmar depois do discurso de Natal de António Costa, que “crítica a política do Governo porque “dificulta a vida das pessoas””, mas será que não há um pingo de vergonha? As políticas de um governo passam quase todas pelo OE, se não as aceitam não os aprovem, negoceiem melhor.

Apesar da situação nacional e das nuvens negras na economia internacional, que darão quase certamente uma chuva de recessão nos próximos 24 meses, gostaria no entanto de deixar um voto de esperança para 2019, ano com três actos eleitorais. Esperança que todos os que desejam um futuro melhor deixemos de estar aparvalhados, até porque não é do actual espectro político que sairá uma solução. Rui Rio é uma nulidade a todos os níveis, só se excedendo no desagrado que os potenciais eleitores têm por ele, enquanto Cristas continua a “jogar” para manter os 5% que dão tachos aos do seu aparelho partidário.

Há várias formas de lutar contra o sistema de interesses instalados, a utilização das plataformas sociais como incubadora de movimentos, ou a exigência aos órgãos de comunicação social de conteúdos de debate sério e não de promoção de spins, com a presença da sociedade civil e não apenas com politiqueiros. A escolha é vossa, sabendo que o que não se deve fazer é deixar andar propagando a podridão, até que sejamos mais uma vez chamados a fazer sacrifícios para uma minoria de privilegiados que não nos dão um cêntimo de valor, a não ser aquando do voto.

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