André Ventura: “Algum eleitorado de Marcelo será capaz de votar em mim para primeiro-ministro”

Líder e deputado único do Chega admite que vitória de Marcelo Rebelo de Sousa é o cenário mais provável a 24 de janeiro e antecipa uma Quarta República que pode começar com um acordo de governo com o PSD. “Esta candidatura, ao contrário de outros partidos e de outros protagonistas, nunca escondeu ao que veio”, defende.

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Miguel A. Lopes/Lusa

Nem as proximidades ideológicas com Marine Le Pen impedem que André Ventura se reveja no exemplo do atual presidente francês Emmanuel Macron e na forma como este conseguiu construir uma ampla maioria parlamentar para o partido que criou a partir do Palácio do Eliseu.

Que sentido faz um político empenhado em criar a Quarta República dispor-se a ser eleito o Presidente da Terceira?

Queremos outro regime, mas entendemos que devemos fazê-lo de forma leal, transparente e democrática, e isso implica, dentro da Terceira República, propor aos eleitores a sua dissolução e a criação de uma Quarta. Isso não se faz, conforme defendem alguns partidos de esquerda que me acusam de antidemocrata, pela via armada ou revolucionária. Faz-se pela via democrática, propondo aos cidadãos uma mudança de Constituição e de regime, nomeadamente nos mais altos cargos do Estado. O Presidente da República é o mais alto magistrado da nação e faz todo o sentido que seja o primeiro protagonista de uma mudança de regime. Sei que muitas vezes as pessoas pensam que o Presidente da República tem poderes muito limitados em Portugal, mas não é um corta-fitas, apesar de muitos dos protagonistas dos últimos anos tenham permitido que a figura do Presidente tenha ficado assim associada. Para o Chega, o Presidente não é um corta-fitas. É a figura máxima do regime e tem capacidade de o modificar. Por isso esta candidatura que, ao contrário de outros partidos e de outros protagonistas, nunca escondeu ao que veio. Não mentimos aos portugueses. Esta é a primeira candidatura presidencial de rutura desde o 25 de Abril.

Ea transformação que pretende ver em Portugal não passa sobretudo pela Assembleia da República?

Passa sobretudo pela Assembleia da República. Mas vou dar um exemplo: após a eleição de Emmanuel Macron para a presidência francesa, que muitos diziam ser impossível – e de que não gostei particularmente -, a força política criada por ele conseguiu amplíssima margem no parlamento. Entendemos que uma vitória ou um grande resultado nas presidenciais vai consolidar o espaço político à direita antissistema para mudar o regime. Este é o primeiro passo. Se vencermos as presidenciais será mais fácil. As sondagens têm mostrado que ganhar a Marcelo Rebelo de Sousa vai ser muito difícil, mas o segundo lugar na noite eleitoral é decisivo. Ser eu ou Ana Gomes vai mostrar que o futuro político do país pode passar por um socialismo mais agressivo ou por uma aglomeração de direita antissistema. Se conseguir ficar em segundo lugar diria que o fim do governo socialista está muito perto e que o mais provável é termos um governo de direita antissistema já no próximo ano.

A deputada socialista Isabel Moreira, que é uma acérrima adversária política do Chega, e em particular de si, disse que constitucionalmente nada impede que um governo apoiado pelo partido tome posse. Ficou surpreendido com essa posição?

Isabel Moreira já percebeu o que todos os portugueses perceberam também: depois de o PS ter feito uma geringonça com partidos que há poucos anos defendiam o roubo de fábricas, o assalto de lojas, a saída do euro e da União Europeia, não tem legitimidade para criticar alianças que se façam à direita. Todos percebemos que o que aconteceu nos Açores deixou um trauma nos socialistas difícil de superar e foi o Chega que esteve no epicentro, pois foi a única novidade nas eleições regionais. No fundo, o que Isabel Moreira vem dizer é “não podemos fazer nada porque não parece haver capacidade de parar esta força”. Provavelmente há aqui alguma resignação dos socialistas. Sei que nos corredores e nos bastidores já começam a dizer que talvez seja melhor deixar o Chega governar durante algum tempo com o PSD, o que na opinião deles seria um desastre, para ver se as pessoas voltam a confiar no PS e nos partidos à esquerda. Por muito que Marisa Matias e Ana Gomes digam o que dizem, é hoje consensual na sociedade portuguesa que o Chega não pode ser ilegalizado. Seria um escândalo de dimensão europeia, para não dizer mundial. E o crescimento do Chega não vai desaparecer, por grandes capas de revista que se façam, por apontarem racismo ou xenofobia ou por processos que me sejam levantados. O PS já percebeu que cedo ou tarde o Chega estará no governo. É uma questão de haver atos eleitorais mais próximos ou mais distantes.

Vê o eleitorado de Marcelo Rebelo de Sousa como uma espécie de genérico que pode cair para qualquer um dos lados?

Basta ver que nas sondagens parece haver um eleitorado de esquerda que prefere votar em Marcelo Rebelo de Sousa. E só há dois eleitorados fixos, em que mais de 80% têm a certeza de em quem votarão: o meu e o dele. Os outros ainda são muito voláteis. Os eleitorados de Marisa Matias e de Ana Gomes estão nos 50 e tal por cento, o que significa que podem mudar. Publique-se o que se publicar, diga-se o que se disser, o meu eleitorado quer uma mudança a sério. Acredito que o de Marcelo Rebelo de Sousa é um eleitorado situado ao centro, e uma parte à esquerda também. Aliás, penso que este apoio do CDS é um tiro nos pés que vai sair mal. O eleitorado vai desrespeitar a ordem de Francisco Rodrigues dos Santos. Penso que a maioria do CDS votará em mim. O CDS que apoiou Basílio Horta nas eleições contra Mário Soares, o CDS de Freitas do Amaral e de Adelino Amaro da Costa, apelo que esse CDS vote em mim, pois votar em Marcelo Rebelo de Sousa é o mesmo que votar em António Costa. Acredito que mesmo algum eleitorado que votará agora nele para Presidente será capaz de votar em mim para primeiro-ministro. Encontro na rua quem me diga isso.

Acha que ganha ou perde votos quando propõe que a deputada Joacine Katar Moreira poderia ser devolvida à Guiné-Bissau?

Há que explicar que estava a ser irónico, pois a deputada Joacine estava a propor que devolvêssemos parte do nosso património às ex-colónias. Portugal teve 500 anos de colonização e agora devolveria património que tem nos museus. Nem sei bem de que património a Joacine estava a falar, mas admito que haja algum que venha ainda do nosso império. Isto é o primeiro passo para acabarmos a assumir as culpas da nossa colonização, como alguns historiadores e políticos já defendem, para dizermos que a nossa História foi um desastre, e depois ainda acabarmos a pagar indemnizações, como outros já fizeram, a países que foram colónias. É um absurdo. Quando disse que se a Joacine quer tanto devolver isso às ex-colónias não poderia ser a primeira a ser devolvida, uma vez que ela própria é de um país que é uma ex-colónia portuguesa, ninguém estava a sugerir deportá-la nem usar qualquer espécie de violência física. Foi uma imagem para explicar o ridículo que a situação acarreta. Os portugueses de bem, que não estão politicamente enviesados, percebem o que quis dizer e percebem o ridículo disto. E os hospitais que lá criámos? E as pontes? E as barragens? E as estradas? Alguém nos vai devolver o investimento que fizemos no império? É tão disparatado que só posso ganhar votos com isso. Quem parar para pensar vê que tenho razão.

Mas admite que é um factor que pode afastar alguns eleitores?

Admito que sim. Às vezes os meus assessores dizem-me que sou muito impetuoso e não deveria reagir tão rapidamente. Em todo o caso, prefiro ser assim do que fazer cálculo político. A pessoa que se apresenta aos portugueses é o mesmo que foi professor universitário, comentador de televisão, cronista de jornais, que nunca deixou de ser autêntico e que vai continuar a sê-lo. Os portugueses veem em mim um político diferente, que fala como as pessoas comuns, que nunca deixou de ser ele próprio, que fala como nos programas de televisão e nas entrevistas, e não faz jogo político para dar uma imagem diferente daquilo que é. Esse é o meu trunfo. Não vou deixar de ser autêntico só para ter vantagem entre o número de votos que possa vir a ter e que possa vir a perder.

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